quinta-feira, 22 de julho de 2010

O CQC e o factóide da "PEC da cachaça"

 Dicionário Aurélio: 

Factóide: fato, verdadeiro ou não, divulgado com sensacionalismo no propósito deliberado de gerar impacto da opinião pública e influenciá-la.

O programa CQC – Custe o Que Custar, humorístico da TV Band -, exibiu no dia 16/06/10 um quadro baseado numa “pegadinha” com alguns deputados – fazendo-os assinar uma PEC propondo adicionar a cachaça na cesta básica do brasileiro. E o resultado foi este: o programa fez sucesso, ecoou na internet e despertou ainda mais a fúria do grande público em relação aos políticos.

Na melhor das hipóteses, o programa em questão serviu para nos alertar da cautela que devemos ter naquilo que assinamos. Se fosse este o foco – “até pessoas importantes assinam documentos sem ler” –, o CQC conseguiria fazer um serviço de utilidade pública com pitada de humor. Mas em vez disto, o programa não passou de um sensacionalismo barato, jogando mais lenha na fogueira em que arde o prestígio dos políticos brasileiros. E o foco acabou sendo este: “os políticos são tão incompetentes, que eles assinam as leis sem ler”. Para piorar a situação, um dos deputados reagiu de forma insana e agrediu a equipe do programa – dando, pois, mais tempero ao “show” e dando mais margem à indignação popular: “além de incompetentes, são truculentos”.  

Para entender por que falo em sensacionalismo barato, melhor é partir de um exemplo prático buscado nos próprios profissionais (burocratas, empresários etc.) que precisam assinar diariamente incontáveis calhamaços. Com a rotina, muitos acabam confiando suas assinaturas menos naquilo que está escrito e mais naquelas pessoas que estão portando os papéis para serem assinados. Um empresário, por exemplo, compenetrado numa reunião qualquer, pode tranquilamente assinar sem ler um documento acidentalmente trazido pelo funcionário, que o comunica superficialmente sobre o assunto tratado no papel. Sim: muitos assinam sem ler direito. É um equívoco, pois, confundir o descuido pessoal (assinar uma PEC sem ler) de alguns políticos com os graves desmandos que acontecem na política em geral. Em outras palavras: um deputado que assina uma PEC sem ler não é necessariamente um homem público ruim.  


Entendendo uma PEC

Agora, para entender a bobagem do CQC, é conveniente uma ligeira explicação sobre o significado e os trâmites de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição)...

O procedimento preliminar de uma PEC é o deputado (autor da proposta) elaborar um ofício e buscar a assinatura dos colegas Pare este fim, ele normalmente escala funcionários ou contrata pessoas. Foi o que o CQC fez: contratou uma moça para colher assinaturas para uma PEC fictícia de um deputado também fictício. E pelo que o CQC mostrou, alguns deputados assinam uma PEC sem ler direto. Isto até porque a assinatura preliminar numa PEC tem caráter informal; reversível... Sem falar que, bem ou mal, existe uma praxe de coleguismo entre os deputados, quando um político da oposição assina uma PEC do político da situação – ou vice-versa. É como se o deputado quisesse dizer ao colega que, no campo pessoal (extra-partidário, ou, antes de o partido sentar para discutir a proposta), há sempre boa vontade. Em suma: é uma assinatura tecnicamente volátil, não trazendo, em rigor, efeito prático algum. Pois a proposta fatalmente voltará de maneira formal ao conhecimento do deputado e ele poderá retirar (ou manter) sua assinatura de acordo com a orientação do seu partido. Mas se for uma proposta esdrúxula e até ilegal (como foi o caso), ela nunca voltará ao deputado, pois morrerá bem no início de um longo e exaustivo processo.

Então chega alguém com uma PEC propondo o aumento de um item na cesta básica do brasileiro e o deputado, na melhor das intenções (presume-se), assina. Qual o crime nisto? Como o programa CQC não exibiu o documento, podemos ainda presumir que a expressão “cachaça” estivesse truncada ou mesmo substituída por uma das suas várias adjetivações – ou ainda embaralhada numa linguagem empolada para confundir o leitor menos atento. Depois, vai a "repórter" jogar na cara do deputado o que ele assinou. E o constrangimento é óbvio para fazer um espetáculo circense em pleno Congresso Nacional, provocando (às vezes de forma injusta) a fama de incompetente a determinado político. Pois para o leigo, a assinatura numa PEC já é lei. Foi o que o programa quis deixar entender.

Pois então qual é o efeito prático (“grave” e “absurdo”) de um deputado assinar uma PEC propondo a marvada na cesta básica? Nenhum! Explica-se...

 As assinaturas numa PEC só dão o direito a determinado deputado de protocolar a proposta que, depois, passa por um rigoroso trâmite. E para ter direito de protocolar a proposta, o deputado precisa de 171 assinaturas dos colegas. Depois disto, segue para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania avaliar o mérito da matéria. Já aqui, a “PEC da cachaça” já estaria morta, ainda mais que a proposta não tinha autoria legítima. Mas vai que, por um surreal acidente de percurso, fosse aprovada...

 Se aprovada, a PEC volta para a Câmara para ser (aí sim) discutida, precisando de 3/5 de aprovação (308 votos dos deputados) em dois turnos. Daí o deputado pode manter ou retirar sua assinatura. Se aprovada na Câmara, segue para o Senado, onde passa pelos mesmos trâmites (também em dois turnos, sendo necessários 49 votos dos senadores).


Congresso Nacional não é circo

O ardil (qual outro nome?) do CQC, que em nada contribui para a moralidade na política, só serviu para trazer constrangimentos desnecessários a alguns deputados – e, claro, para denegrir a imagem de um Congresso já fartamente torpedeado e com a credibilidade em baixa. Razões para isto, claro, não faltam.

Foi cogitada entre alguns deputados a hipótese de coibir “brincadeiras” do tipo dentro do Congresso Nacional. Por sua vez, integrantes do CQC e mesmo profissionais de TV reclamam da “censura”, ou, “cerceamento da liberdade de imprensa”. Creio que andam confundindo liberdade com libertinagem, ou, leviandade.

Você pode (e deve) ter todos os motivos do mundo para reprovar os políticos e a condução da política nacional como um todo; o político pode (e deve) aceitar que uma equipe de TV leve humor que venha a quebrar de maneira saudável as tensões no seu ambiente de trabalho. Por sua vez, a imprensa deve gozar de plena liberdade para (com humor ou sem humor) exercer o trabalho dela, denunciando todo e qualquer vício, principalmente no espaço democrático que é o Congresso Nacional. Mas, definitivamente, ali não é lugar de palhaçada. 

O link para o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=lpuhlMpv5Fk

(Publicado no Portal Nassif dia 22 de julho de 2010; Publicado no Observatório da Imprensa em 27 de julho de 2010).


domingo, 27 de junho de 2010

O dia em que Roberto Freire furou a fila - e perdeu um voto.

Vivíamos o calor das primeiras eleições diretas após um longo período de ditadura. Por isto, o que monopolizava o debate naquela época era muito menos a economia do país e muito mais o perfil ideológico dos candidatos. E Roberto Freire (PCB) figurava como "esquerda" e servia para muitos intelectuais como uma espécie de coringa na rivalidade entre os eleitores de Brizola (PDT) e Lula (PT). Na época, eu não entendia muito bem a diferença entre o PC do B (que estava coligado com o PT) e o PCB (hoje PPS) de Freire. Um amigo explicou de forma irônica, porém bem didática: "PC do B significa Partido Comunista do Brasil; e PCB significa Partido Comunista Burguês". A despeito dessas contradições ideológicas da vida, lembro de um constrangimento vivido por Roberto Freire no dia da eleição e que foi registrado numa pequena "nota de bastidores" num jornal. Foi um incidente pequeno, porém emblemático.

No dia 15 de novembro de 1989, o primeiro turno daquelas eleições, Roberto Freire, em Pernambuco, resolveu acompanhar a filha (que votava pela primeira vez) à seção eleitoral dela. A fila para votar estava grande e, após as saudações dos populares ao candidato, uma moça que aguardava sua vez percebeu uma movimentação em torno dos mesários da seção. Em pouco tempo, a filha de Freire foi chamada para votar - "furando" assim a fila e passando na frente dos outros eleitores. E a moça (que tinha percebido tudo) começou a protestar em voz alta diretamente com o candidato: "É assim que o senhor pretende governar o Brasil?". Enfim, a indignada fez a declaração derradeira; algo como: "Eu ia votar no senhor, mas depois dessa não voto mais".

(Publicado no Portal Nassif em 27 de junho de 2010).



terça-feira, 22 de junho de 2010

Torpedão Confusão

O chamado "Torpedão Campeão", uma promoção da Copa 2010 liderada por uma emissora de TV junto a um pool de quatro operadoras de telefonia móvel, insiste em não esclarecer de forma objetiva aquela que tem sido a maior dúvida dos participantes. É o que se percebe no próprio blog que uma das operadoras montou para esclarecer as dúvidas dos clientes (vide link mais adiante). Assim, muitas pessoas, sem querer, estão comprando cupons adicionais para a participação nos sorteios - quando, na verdade, intentavam a compra de apenas um cupom. E a turma do celular pós pago só vai perceber o prejuízo quando vier a conta...

Para entender o problema, basta ler o regulamento ou assistir na TV as "informações" passadas pelos promotores, nos sorteios. Estes dizem o seguinte: você compra um pacote de 30 (trinta) torpedos por R$ 4,00 "para se comunicar", liga para o número 2010, responde à pergunta proposta e pronto: já está participando do "Torpedão Campeão". Esta informação, dada de forma invertida, está gerando muita confusão nas pessoas que participam ou desejam participar. Digo "forma invertida" porque a forma mais plausível da promoção seria: "compre um cupom e ganhe grátis 30 torpedos". Ainda assim, ficaria no ar a dúvida: os 30 torpedos sevem para quê? Pois muitos estão confundindo “cupom” com “torpedo”, julgando que os 30 torpedos são bônus que devem ser enviados à promoção. Observe-se, pois, que o próprio título – “Torpedão Campeão” – induz ao equívoco.
 
Enfim, para resumir a história, o melhor é partir logo para a informação objetiva: você compra por R$ 4,00 (mais os impostos) um pacote de 30 torpedos para enviar aos seus amigos* e ganha o direito a um único cupom de participação na promoção”. Embora isto esteja no regulamento disponível na internet, ninguém na TV ou nenhum site diz objetivamente: OS 30 TORPEDOS NÃO SERVEM PARA O SORTEIO.
 
*Obs.: pode parecer detalhe tolo, mas a expressão “aos seus amigos” evitaria muita confusão.

Enfim, as informações adicionais seriam estas:
 
1- Cada R$ 4,00 dá direito a apenas 01 (um) cupom de participação ao longo de toda a Copa do Mundo;
2- Se alguém for contemplado num sorteio, o cupom não é eliminado da promoção, ou seja, ele volta à "urna" (por assim dizer) e o sortudo tem a chance de ganhar novamente com o mesmo cupom;
3- O pacote de 30 (trinta) torpedos da promoção não tem nada a ver com os sorteios. Em outras palavras, os torpedos não têm utilidade alguma para os sorteios; os torpedos do pacote podem ser enviados aos familiares e amigos (independente da operadora deles) e têm validade de 30 (trinta) dias a partir da data da compra;
4- Para cada pacote de 30 torpedos comprado, o participante recebe um único cupom para participar dos sorteios. Se o participante comprar dois pacotes (num total de 60 torpedos), ele terá o total de 2 cupons nos sorteios. E assim por diante.
 
Por que ninguém na TV nem nos sites das operadoras informa claramente isto? Em vez de esclarecer objetivamente, todos tergiversam  - aumentando ainda mais as dúvidas. Para exemplificar, cito o exemplo de um blog que uma das operadoras montou para esclarecer as dúvidas dos clientes quanto à promoção.
 
Um cliente, por exemplo, perguntou:
 
Pergunta: "comprei o torpedao e quando mando mensagem para 2010 com a palavra cupom,vem uma mensagem que tenho 0 cupom,sedo que usei os 30 torpedos que ganhei e a toda hora vem mensagens! oque poderia ser?"
 
Resposta: Olha, Ricardo, a geração do cupom pode demorar um pouco. E, além de enviar a palavra CUPOM para o número 2010, você também pode consultar seus cupons no site www.torpedaocampeao.com.br. De qualquer forma, se o tempo de espera estiver muito grande, entre em contato com o Atendimento para que eles possam verificar o seu caso.
equipe ClaroBlog
 
Observe que a "Equipe ClaroBlog" não entendeu (e obviamente não resolveu) a confusão que o cliente expressa na pergunta dele, ou seja, ele está considerando que os 30 torpedos comprados são “bônus” para participação nos sorteios. Ou seja: muito provavelmente ele possui celular pós pago e comprou, sem saber, 31 cupons, gastando ao todo R$ 124,00 (que pode chegar a cerca de R$ 150,00 com os impostos).
 
Outras perguntas e respostas:
 
Pergunta: "Não entendi muito bem, os 30 torpedos que eu ganhei,serve pra que? e como eu uso? Afinal eu concorro com os 30 torpedos ou pelos Cupons que eu tenho? Abrigado(sic)"

Resposta: Jorge, você concorre até o final da promoção com os cupons que adquirir. Pra saber quantos são, envie, grátis, a palavra CUPOM para 2010. Já o pacote de 30 torpedos podem ser enviados como mensagens de texto (salvo as exceções descritas no post) pra qualquer operadora. Ficou mais claro agora? Se não ficou, só deixar outro comentáqio, ok! E, boa sorte!
equipe ClaroBlog

Pergunta: "como faz para passar 30 sms para 2010??? por favor me ajude!!!"

Resposta: Então, Ana Carolina, funciona assim: cada vez que você envia uma mensagem para o número 2010, estará comprando um pacote com 30 SMS e também ganhando um cupom para participar dos sorteios da promoção. E você pode utilizar os 30 SMS para enviar mensagens para números de qualquer operadora, ok.
equipe ClaroBlog

Pergunta: Ola queria tirar uma dúvida... é q não entendi muito bem se pra cada pacote que eu compra é necessário q sempre compre o cupom po 4 reais ou se estes 30 torpedos são válidos para serem enviados como cumpos? Obrigadu se puder me responder!!!!"

Resposta: Então, Jairo, cada compra de pacote gera 1 cupom para participar dos sorteios. E cada pacote vem com 30 SMS para você enviar mensagens para o número de qualquer operadora.
equipe ClaroBlog

http://www.claroblog.com.br/conteudo.asp?post_id=504

Ora, os representantes da empresa não responderam de forma clara as dúvidas dos clientes, que provavelmente continuaram pensando que os 30 torpedos, "que você pode enviar para números de qualquer operadora", são bônus que devem ser enviados para o número da operadora do cliente.

Obviamente, não existe má-fé dos representantes, já que a origem de tudo está na própria futilidade do pacote de 30 torpedos (que veio mais para confundir do que para fazer um agrado) e na fantástica incapacidade da organização para esclarecer uma dúvida óbvia que está trazendo imensos prejuízos aos clientes. Enfim, espero que tal fator seja apenas incompetência mesmo.

(Publicado no Portal Nassif em 22 de junho de 2010)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Dossiê do PT - Versão 3.0.

Com mais um "escândalo de dossiê" (este da Verônica Serra, de 2010, já é o terceiro), vale a pena viajar no tempo para resgatar um fenômeno curioso, qual seja, como um partido político (com a ajuda da manjada mídia) conseguiu transformar em lucro político aquilo que era considerado um trunfo dos adversários. Refiro-me ao "Caso do Dossiê - Versão 1.0", conhecido como o "Dossiê dos Aloprados", de 2006, que deu origem à série. Para você que ainda não adquiriu a sua coletânia, eis a lista dos lançamentos:

Dossiê do PT - Versão 1.0 - 2006 - "O Dossiê dos Aloprados".Dossiê do PT - 

Versão 2.0 - 2008 - "O Dossiê dos Gastos de FHC".

Dossiê do PT - Versão 3.0 - 2010 - "O Dossiê da Filha do Serra".

Mas em vez de destacar o mais novo lançamento da mídia (a Versão 3.0 que já foi esmiuçada por Luís Nassif), melhor é partir para o curioso caso que deu origem à série: o Dossiê dos Aloprados. Curiosamente, até hoje ninguém se deu conta de que a origem da montanha de dinheiro (R$ 1,7 milhão!!!) usada para a compra de um dossiê fajuto ainda não foi devidamente explicada.

Bom, partamos do princípio de que o PT realmente comprou um dossiê contra José Serra na campanha eleitoral de 2006.

Mas convido você a fazer uma pequena viagem no tempo e seguir uma linha de raciocínio embasado em fatos com links alheios aos factóides da grande mídia. Se você não tiver paciência para ler o que segue abaixo, recomendo apenas o link do Luis Carlos Azenha, ex-jornalista da Globo que vivenciou a tramóia por dentro. Clique AQUI p/ ler o ótimo post "Proibido para quem tem menos de 30 anos" e constatar como alguns jornalistas jogaram a ética no lixo.

Agora, se você tiver paciência, siga a leitura...

Em 2006 estourou o "Escândalo dos Sanguessugas" que envolvia um esquema de compra de ambulâncias superfaturadas. Se vc. não lembra, a Wikipedia, embora não seja uma fonte muito confiável, traz um bom resumo.

A mídia deu ampla repercussão ao caso, acusando o então ministro da saúde Humberto Costa de estar em conluio com a máfia. Humberto Costa era candidato do PT ao governo de Pernambuco. A revista Veja destruiu, ou melhor, tentou destruir a reputação de Humberto Costa. Clique AQUI para ler.

O PT por sua vez isentava Humberto Costa; depois, descobriu-se que a máfia teve origem quando José Serra era ministro da saúde. Um vídeo institucional (aparentemente de propaganda política) mostrava o então ministro da saúde José Serra entregando ambulâncias a vários políticos que, posteriormente, foram flagrados no esquema. Clique AQUI para assistir ao vídeo ou pesquise no Youtube por "serra sanguessugas" que aparecerão vários vídeos sobre o tema. O vídeo obviamente não prova que Serra estava em conluio com a máfia, mas é evidente que isto seria demolidor para a campanha do PSDB, ou seja, Serra junto aos mafiosos entregando-lhes ambulâncias superfaturadas. E é evidente também que a mídia (que apoiava Alckmin para presidente e Serra p/ governador) abafou o vídeo que, repito, tratava de uma solenidade oficial.

Especulava-se na época que a campanha de Aloísio Mercadante ao governo de São Paulo pretendia usar tais vídeos para detonar a campanha de Serra. Era mera especulação, mas tudo levava a crer que sim.

Lula era candidato à reeleição e tudo levava a crer que ganharia a eleição no primeiro turno.

Às vésperas do primeiro turno das eleições de 2006, apreenderam num hotel uma montanha de dinheiro com "aloprados do PT" que pretendiam comprar um "dossiê" contra José Serra. Neste "dossiê" haveria "documentos" e "vídeos" contra José Serra. De repente, o negócio foi estourado pela Polícia Federal. Equipes de TV chegaram quase que instantaneamente à sede da PF.

Algo não fecha nesse escândalo e soa muito estranho: a forma como os "aloprados" (como Lula os chamou) aceitaram pagar R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo (até em notas miúdas, de R$ 10,00, para fazer bastante volume) por um "dossiê" que, soube-se mais tarde, não continha nada de escandaloso. Ainda por cima, as equipes de TV de prontidão na PF... Pior: horas depois do flagrante, a revista "Isto É" já circulava com os irmãos Vedoin acusando Serra. Das duas uma: ou os "aloprados" são muito imbecis; ou são "petistas" mercenários. Entenda-se como quiser.

Na época, por entender que ainda era um caso obscuro, a justiça eleitoral proibiu a divulgação das fotos da montanha de dinheiro às vésperas da eleição. A Globo e grande imprensa conseguiram as fotos de forma fraudulenta, com a ajuda do mesmo delegado da PF que flagrou o caso. O delegado, de forma ilegal, fotografou e autorizou a imprensa a "vazar" as fotos e disse que acusaria alguma faxineira pelo roubo e vazamento da foto. No vídeo, o delegado ensina aos jornalistas como atuar para não deixar suspeitas e atua como se fosse um "marketeiro" aliado do PSDB. Confira no vídeo, ou melhor, áudio publicado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha:

https://www.youtube.com/watch?v=-rkSfSIuHAY

Obs.: o áudio acima foi gravado por um dos jornalistas presentes que ficou enojado com a ilegalidade.

A Globo e a grande imprensa guardaram o material para divulgar na véspera da eleição. Isto foi feito. O escândalo prejudicou muito a campanha de Mercadante e do próprio Lula. Por motivos óbvios, o escândalo acabou neutralizando os bombásticos vídeos (Serra e os sanguessugas) que a campanha do PT, supostamente, tinha em mãos. Pois se o PT mostrasse os vídeos na campanha, qualquer um iria associar os mesmos como sendo de origem criminosa.

Até hoje não se sabe a origem do dinheiro. O PSDB diz que é do PT; o PT diz que é armação do PSDB. Qual é, afinal, a origem do dinheiro? Ninguém sabe. Estranha-me o fato de que nenhum dos dois partidos (PT e PSDB) tivessem vontade de apurar. Em 24 de abril de 2007, o TSE decidiu por unanimidade que não havia qualquer prova que ligasse o PT ou qualquer dos seus membros ao chamado "escândalo do dossiê". Clique neste link:

http://agencia.tse.gov.br/sadAdmAgencia/noticiaSearch.do?acao=get&a...

Clique AQUI para ler que Humberto Costa foi inocentado por inanimidade na "Operação Vampiro" após o proprio MPF (autor da denúncia) ter pedido a absolvição do ex-ministro.

Cronologia do escândalo segundo a revista Carta Capital:

http://www.cosif.com.br/mostra.asp?arquivo=20061023escandalopsdb#re...

(Publicado no Portal Nassif em 04 de junho de 2010)



sexta-feira, 21 de maio de 2010

O dia em que Francisco Gros peitou Lula

Com o falecimento de Francisco Gros, julgo oportuno lembrar um episódio ocorrido em pleno calor da campanha eleitoral de 2002. Pois naquele ano veio à tona a discussão da construção das plataformas da Petrobrás na Ásia.

Na época, Lula criticou muito tal política de importar as plataformas, quando estas poderiam ser feitas no Brasil para gerar empregos e fomentar, ou melhor, ressuscitar a indústria nacional no setor.  O então presidente da Petrobrás Francisco Gros, falando pelo governo, rebateu Lula dizendo que era muito mais vantajoso para o Brasil a construção das plataformas fora do país. Disse ainda que o Brasil não tinha condições técnicas para disputar a licitação. Sem falar do alto custo... Uma reportagem da revista ‘Isto É’ (vide link ao final) sob o sugestivo título “Bate-boca em alto-mar” retratou bem o episódio.

 Eis um trecho da reportagem bem esclarecedor:

 As duas outras plataformas, a P-51 e P-52, ainda não foram alvo de licitações. Pronto, por enquanto, existe apenas o projeto de engenharia básica feito pelo Centro de Pesquisas da Petrobras, com detalhamento técnico da empresa norueguesa Aker Kvaerner. "O processo de licitação ainda não começou nem será restrito a empresas estrangeiras e, sim, a todas que tiverem recursos tecnológicos", afirma Gros. "São plataformas especializadas, só existem cinco delas no mundo e nunca foi construído no Brasil esse tipo de plataforma", comenta o presidente da Petrobras, deixando claro que dificilmente um estaleiro brasileiro teria condições de disputar a licitação.

 Claro: ao final do governo Fernando Henrique Cardoso, os estaleiros estavam quase todos quebrados e a Petrobrás vivia o pior momento da sua história, com sucessivos desastres que causaram muitos prejuízos principalmente no que tange aos danos ambientais. Pois que a febre da terceirização tão apreciada pela política neoliberal atingiu em cheio não só as indústrias nacionais, mas também o próprio corpo operacional da Petrobrás, com a contratação de funcionários terceirizados em setores que exigiam alta capacitação técnica. Por isto os sucessivos desastres, como o afundamento da plataforma P-36 causado, segundo a ANP, por erros de projeto e manutenção. Assim, ainda que não fosse esta a intenção, soou como galhofa a alegação de Gros de que os processos licitatórios “não eram restritos às empresas estrangeiras”, mas ressalvando que dificilmente um estaleiro brasileiro teria condições sequer de disputar uma licitação. 

Do horário eleitoral de 2002, lembro da insistência de Lula no assunto. Sobre o “alto custo” e a “inviabilidade técnica” que o governo de FHC alegou para justificar a importação das plataformas, Lula respondeu que nada era mais caro do que o desemprego dentro do país. Ou seja: ainda que fosse muito mais caro construir as plataformas dentro do Brasil, os empregos gerados dentro do país – inclusive com investimentos em pesquisas – já valeria a pena. E prometeu construir as plataformas dentro do Brasil.

Enfim, a realidade está aí: a Petrobrás, ano a ano, está alçando no ranking das maiores empresas do mundo ao passo que a indústria naval brasileira, ressuscitada, vive um momento de pujança.

Link para a reportagem da “Isto É”:

http://www.istoe.com.br/reportagens/23676_BATE+BOCA+EM+ALTO+MAR

(Publicado no Portal Nassif em 21 de maio de 2010)



domingo, 11 de abril de 2010

Programa "Soletrando" cometeu dois erros e deveria ser anulado.

No programa "Soletrando", do "Caldeirão do Huck", o apresentador Luciano fazia questão de dizer que as palavras sugeridas pelos telespectadores eram "sorteadas por computador". E quis o destino que o computador, ingrato com o mineirinho, escolhesse a palavra "kirsch", que vem do alemão e significa "aguardente de cereja". Qualquer um erraria. Mas o professor Sérgio Nogueira explicou que aquilo fazia parte das regras do jogo, ou seja, valem as palavras estrangeiras que são dicionarizadas Então tá.

A final entre a representante do Piauí e o representante de São Paulo inaugurou uma nova regra: a mesma palavra para ambos. Nada mais justo. Mas a palavra final foi "iâmbico". A menina pediu uma definição da palavra e foi prontamente atendida: "irônico, sarcástico, satírico.". Então a piauiense soletrou "h-i-â-m-b-i-c-o". O menino de São Paulo também pediu definição, que foi a mesma. E soletrou certo e foi campeão.

Os critérios para a aceitação das palavras é que as mesmas devem constar no dicionário, mas não é definido qual deles (Aurélio ou Houaiss, para citar os mais usados). Assim sendo, para ser realmente justo, há que se considerar que as palavras escolhidas devem constar em TODOS os dicionários e devem ter TODAS AS DEFINIÇÕES COINCIDENTES, ao menos nos dois dicionários mais populares no Brasil. E a esmagadora maioria das palavras trazem tal característica, ou seja, grafias e definições pacificadas em todos os dicionários. Se tal critério fosse respeitado, a final do "Soletrando" teria que ser anulada por dois erros.

O primeiro erro está na palavra "kirsch", que desclassificou o representante de Minas Gerais. A palavra foi realmente "dicionarizada" no Aurélio, mas no Houaiss (pelo menos na primeira edição, que possuo), "kirsch" remete à variante aportuguesada "quirche", onde está a definição. É exatamente o mesmo processo, por exemplo, da palavra "whisky", que no Houaiss remete à expressão aportuguesada "uísque", enquanto no Aurélio não há menção a "whisky" - e sim "uísque".

Outro erro está na definição escolhida pelo programa para "iâmbico": "irônico, sarcástico, satírico". Acontece que tal definição só consta no dicionário Aurélio; no Houaiss (repito: até a edição que possuo) consta apenas isto: "1- diz-se de ou verso composto por iambos"; "2- relativo a iambo". Então, você precisa consultar a palavra "iambo", no Houaiss, para saber:

"1- que ou o que compõe uma unidade de tempo breve seguida de outra longa (diz-se de pé métrico no sistema de versificação greco-latino)"

Só na terceira definição do Houaiss há uma menção ao cunho satírico em "iambo", mas note que o escopo é a modalidade de poesia: "3- modalidade de poesia satírica, própria da literatura francesa (...)".

Enfim, se o programa Soletrando quiser ser justo, o concurso final tem que ser anulado.

(Publicado originalmente no Portal Nassif em 11 de abril de 2010).




sábado, 27 de março de 2010

A campanha contra o papa

 No dia seguinte à escolha de Joseph Ratzinger como sucessor de Karol Wojtyla, publiquei um artigo cujo escopo era uma crítica ao conservadorismo da Igreja Católica na figura do novo papa. Pois a preocupação centrava-se na posição da Igreja Católica sempre contrária a temas sensíveis como, por exemplo, os métodos contraceptivos e o aborto em casos específicos respaldados pela justiça. Hoje, o artigo está disponível no site do Ministério da Saúde. Bom, este parágrafo inicial é para dizer que sou insuspeito para (se alguém assim imaginar) defender Joseph Ratzinger. Pois o propósito verdadeiro é refutar o mau jornalismo.

 O último noticiário sobre o suposto “acobertamento de pedofilia” por parte de Joseph Ratzinger é mais uma daquelas reportagens (factóides) criadas em cima de leituras enviesadas de documentos verdadeiros. Ou seja: uma vez definido o lide da notícia, saem à cata de quaisquer fatos que, no fim das contas, servem para preencher o molde que dará forma ao monstro. Saliente-se que não estou me referindo ao “conjunto da obra” dos acobertamentos de pedofilia dentro da Igreja. Vale repetir: refiro-me ao último noticiário.

Não vem ao caso esmiuçar, aqui, os reais motivos que puseram a mídia mundial contra Joseph Ratzinger. O fato é que a reportagem do The New York Times é típica daquelas que já deveriam ter nascido mortas – haja vista a falta de nexo de uma história que, por fim, acaba até desviando o foco dos vários outros casos vivos de pedofilia dentro da Igreja que merecem ser apurados e denunciados. Mas não: no momento, o jornalismo precisa centrar fogo na pessoa de Joseph Ratzinger. Pois, para o jornalismo de resultados, nada interessa senão a espetacularização, a qualquer custo, de um escândalo envolvendo uma pessoa célebre, ainda mais sendo o papa. Ora, se há uma denúncia grave a ser feita, que esta seja alicerçada em argumentos sólidos que venham a sustentar de forma coerente o enredo da notícia. E o que estamos assistindo?

Para clarear a coisa, vamos tentar sintetizar a denúncia...

Jospeh Ratzinger, na condição de cardeal na década de noventa, teria recebido cartas alertando sobre os abusos sexuais praticados pelo padre Lawrence Murphy. E as cartas pediam que a Igreja Católica tomasse, segundo a reportagem, “providências para restaurar a confiança da comunidade”. E vem a acusação: na época, Ratzinger, que respondia pelo destino dos padres, “nunca teria respondido as cartas”. Já aqui, se o propósito é acusar alguma falha de Ratzinger, encontramos um paradoxo: se o teor das cartas era para acusar o problema para que, enfim, fossem tomadas providências para a “restauração a confiança da comunidade” (leia-se “remediar a imagem da Igreja”), então qual o crime em não respondê-las? Ou melhor: o que responder se (segundo documentos levantados pela reportagem) as providências já teriam sido tomadas pela própria Igreja local e pela justiça norte-americana após as denúncias chegarem à polícia?  Mas o pior não é isto.

O que segue na reportagem é o próprio desmonte do escândalo em cima de Ratzinger – mas que, haja vista o cunho demolidor da notícia (“Papa Acoberta Pedofilia”), acaba ficando estéril ao leitor menos atento. Lembre-se que “acobertar”, no caso, traz o sentido não apenas de “proteger”, mas também de “patrocinar”; “dar condições”; “ser conivente”... Você pode não simpatizar com o papa, mas de jeito algum parece plausível que isto tenha acontecido. Ao menos neste caso.

Pois a reportagem diz que os abusos do padre Murphy foram cometidos há mais de 35 anos. Ou seja: o assunto só teria chegado ao conhecimento do então cardeal Ratzinger vinte anos depois dos crimes praticados pelo padre pedófilo, quando o mesmo já se encontrava recluso, velho e doente. Ainda, quando Ratzinger recebeu as cartas, Murphy já tinha sido oficialmente suspenso de suas funções e já respondia  a um processo aberto pela Diocese de Wisconsin e também pela justiça comum que, diga-se de passagem, não deu andamento ao caso. Murphy então, muito adoentado, teria escrito para Ratzinger dizendo-se arrependido pelo que fez e pedindo o fim do processo. O processo então (dentro da Igreja) foi arquivado e pouco tempo depois Murphy veio a falecer.

Em resposta à reportagem do NYT, religiosos católicos do mundo inteiro têm sido uníssonos em abominar a pedofilia dentro da Igreja da mesma forma com que condenam o que chamam de "campanha" contra o papa.

(Publicado originalmente no Portal Nassif em 27 de março de 2010)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sobre a retirada dos vídeos do YouTube

Tenho recebido várias mensagens solicitando uma nova publicação dos vídeos 'Pink Floyd & Mágico de Oz", que foram por mim legendados.

Infelizmente, a MGM (Metro-Goldwy-Mayer) solicitou a retirada dos vídeos "Pink Floyd & Mágico de Oz" do YouTube, por entender que os direitos autorais estavam sendo violados. Particularmente, acho um equívoco da gravadora - já que muitas pessoas se interessaram em assistir ao filme na íntegra depois que os vídeos foram divulgados. Enfim, este é um direito da gravadora que não cabe discutir.

Mas foi uma pena... Pois, modéstia à parte, os meus vídeos (entre tantos disponíveis) se tornaram os mais populares (do gênero, claro) do YouTube exatamente por mostrar nas legendas não só todas as coincidências, mas também o de narrar ao espectador o que estava acontecendo no enredo do filme (providência fundamental para a perfeita compreensão da sincronia).

Alguém (que não conheço) publicou os vídeos novamente no Youtube em 5 partes. E a MGM, ao que parece, solicitou a retirada dos vídeos - mas apenas a Parte 5 foi deletada. Tenho recebido inúmeros pedidos por e-mail (exibido na legenda da Parte 1) para que eu publique a Parte 5. Obviamente não tenho como atender, já que não sou dono do tal canal do Youtube.

Eis o link para o meu canal:
http://www.youtube.com/user/mikesaba5


terça-feira, 22 de setembro de 2009

A crise de 2008/2009 para o leigo entender

 Passado um ano do início de uma das mais graves crises financeiras da história, julgo interessante uma explicação singela acerca do que realmente aconteceu.

E para que se compreenda a crise de forma clara, elaborei este texto que, na verdade, foi inspirado (e compilado) em algumas explicações que circularam na internet no mesmo caráter metafórico – mas que destrincham a crise de forma bem didática para os leigos entenderem. E aqui repasso para quem tiver paciência em ler.

Antes de começar, vale lembrar que a crise financeira mundial é um somatório de fatores que vêm de muito tempo atrás. Mas só explodiu recentemente em dois fatos notáveis:

- Agosto de 2007 (explosão da crise imobiliária norte-americana);

- Setembro de 2008 (quebra do Lehman Brothers, banco de investimentos norte-americano).

E por que tais datas são importantes? Por que a crise explodiu?

A historinha então, sugestivamente dividida em dois capítulos com personagens e instituições fictícias, é comprida, mas dá uma boa dimensão para se compreender a crise como um todo: origem, profundidade e desdobramento.

A crise para os leigos

Cap.1 - A bolha imobiliária

John, cidadão da classe média americana, comprou uma casa no começo de 1996 por 300.000 dólares financiados em 30 anos pelo Strong Bank.

Em 2001, para amenizar o desarranjo econômico potencializado pelos ataques terroristas de 11 de setembro, o Banco Central americano baixou muito os juros para incentivar o consumo e assim tentar aquecer a economia. A medida funcionou bem principalmente para cidadãos iguais a John que sonhavam com uma casa própria.

Tendo a casa de John como garantia (em tese 300 mil no ativo), o Strong Bank passou a conceder outros empréstimos. Em cada novo empréstimo concedido, mais casas eram hipotecadas ao banco... E quanto mais casas eram hipotecadas, mais gordo o banco ia ficando.

Com a bolha imobiliária, em 2006 a casa de John já estava valendo 1 milhão de dólares. Daí John viu que este era um excelente negócio. E como os imóveis só valorizavam, o banco julgou que era negócio emprestar dinheiro (para compra de imóvel) inclusive para aqueles que tinham “ficha suja” no comércio. Ou seja: se o imóvel entra como garantia no empréstimo, qual é o risco do banco negociar com um consumidor não-confiável? A este tipo de empréstimo para mutuário duvidoso, chamaram de “subprime”.

Ainda faltavam 20 anos para John quitar sua casa, mas o Strong Bank ofereceu um outro empréstimo para John comprar um apartamento no valor de 800 mil dólares. John e a esposa Sandy tinham bons empregos e os dois filhos estudando em boa universidade particular. As perspectivas eram muito boas: comprariam o segundo imóvel, que colocariam para alugar. Uma renda extra é sempre bem-vinda.

Com o mercado imobiliário “bombando”, os imóveis valorizando, mais gente comprando e mais gente contraindo dívida que o banco enxergava como ativo, o Strong Bank (inflado como nunca) abriu um fundo de investimento chamado Easy Money (E.M). Quem aplicasse no fundo E.M. teria participação na engorda que o banco estava obtendo com pessoas espertas iguais a John. Assim, desde pessoas comuns até empresas, inclusive bancos, começaram a aplicar no fundo que estava rendendo muito mais que a poupança. Afinal de contas, os juros estavam muito baixos. Com os juros baixos, a poupança rendia pouco. Como o E.M. era um investimento de risco, pagavam-se juros bem maiores. Mas tratava-se do Easy Money do renomado Strong Bank. Poupança era coisa de burro ou medroso.

Com crédito farto e o dinheiro emprestado do banco, John e Sandy compravam tudo o que viam pela frente. Por intermédio de amigos, ficaram sabendo de outros excelentes negócios imobiliários. E resolveram comprar uma casa em construção num condomínio de luxo. Fizeram nova hipoteca e obtiveram fácil um empréstimo. Com mais grana na conta (e felizes com a perspectiva do futuro) compraram à prestação carros importados para toda a família. Mais: TV de plasma, computadores, roupas de griffe, viagens paradisíacas, cirurgias plásticas, produtos importados... O cartão de crédito era uma festa! Enquanto isso, o resto do mundo, que vendia para os EUA, locupletava-se com a vitalidade da economia americana.

Enquanto John ria à toa, a construção civil, a mola-mestra da economia, começou a nadar de braçada. Estava criado o chamado ciclo virtuoso: muita oferta de trabalho; trabalhadores ganhando dinheiro; os bancos emprestando dinheiro; trabalhadores gastando dinheiro; o comércio lucrando; as indústrias a todo vapor; mais empregos; muitos “johns” investindo em imóveis; muita procura por imóveis (e, por conseguinte, valorização do preço dos imóveis); mais imóveis sendo construídos; muita oferta de trabalho...

Daí o Banco Central americano percebeu que, com o consumo cada vez maior, os preços começaram a subir bem como os imóveis. E para inibir o consumo e assim conter a ameaça da inflação, o Banco Central começou a subir a taxa de juros.

Daí, John começou a perceber que as prestações que estava pagando, que eram pós-fixadas, começaram a subir no compasso da alta dos juros. Até que começou a se enrolar com as dívidas. John conseguiu refinanciar sua casa, mas não conseguia mais pagar aquele apartamento de 800 mil que tinha financiado e tampouco a casa no condomínio de luxo. O Strong Bank tomou, por inadimplência, os dois imóveis de John e colocou-os a venda.

Surgiu outro problema: Fred, que era funcionário da imobiliária do Strong Bank, foi escalado para colocar a placa “vende-se” no apartamento de John. E quando Fred chegou ao prédio, viu que o imóvel de John era vizinho ao que ele também, Fred, estava financiando no valor de 900 mil. Pior: Fred notou que havia outros apartamentos com as mesmas placas. E não era só ali, mas em todos os cantos da cidade. Fred contou isto para o gerente, que concluiu: todo mundo pensou igual a John.

Foi aí que, em agosto de 2007, explodiu a crise imobiliária. E o que foi esta explosão?

Tal explosão foi o contraponto da euforia anterior explicada pela lei da oferta e da procura. Ou seja: com milhares de “Johns” procurando imóveis para investir, o mercado foi sendo inflacionado com absurda valorização. A procura era tanta que a construção civil, na “velocidade máxima”, mal conseguia acompanhar a febre do consumo. É também este fator que, fora a especulação imobiliária, inflacionava o setor. Em suma: os imóveis valorizavam na medida em que muito mais imóveis eram construídos.

Quando todo mundo “acordou” do sonho bom, começou o pesadelo. Mais e mais imóveis dos “Johns” começaram a ser colocados à venda; e na medida em que isto acontecia, o preço caía. Quem vai querer investir num produto cujo preço cai todo dia? Assim, ninguém queria mais investir em imóveis, que perderam a liquidez.

O dinheiro que John juntou durante a vida toda se transformou num único imóvel (em que morava a família) e em várias dívidas. Depois de vender três carros da família e cancelar os planos de saúde, John passou a atrasar as mensalidades dos filhos na universidade.

Cap. 2 - Um ano depois, a quebra do banco

O problema foi se arrastando até que, em Agosto de 2008, Patrick, o dono da universidade onde estudavam os filhos de John (e muitos outros “Johns”), ante a inadimplência dos estudantes, ficou apertado e precisava de dinheiro para pagar as despesas, como os salários dos professores. E foi ao Strong Bank sacar 30 mil dólares que mantinha nos fundos E.M. Mas quando chegou lá, viu que o seu dinheiro tinha virado pó. Por que? Porque, lembre-se, a garantia dos fundos E.M. eram os imóveis hipotecados ao banco, que se desvalorizaram e perderam a liquidez. Alarmados, quase todos os investidores correram para sacar o que tinham investido... E o banco quebrou.

Desesperado, Patrick então correu ao Trust Bank, onde era cliente, para pegar um empréstimo. Quando chegou lá, viu que o Trust Bank também estava em maus lençóis... É que o banco também investiu muito dinheiro no E.M. do Strong Bank. O gerente do Trust Bank informou a Patrick que, embora ele fosse um ótimo cliente, o banco não poderia emprestar o dinheiro – haja vista que, ante a quebradeira geral, ninguém confiava mais em ninguém. Patrick então ofereceu um imóvel como garantia, mas o gerente, constrangido, informou: nessa altura do campeonato, quem é louco de pegar um imóvel como garantia?

O professor Jimmy, que dava aulas na universidade de Patrick, ficou sem receber o seu salário. Jimmy tinha família para sustentar e tinha várias obrigações a serem pagas. Assim, nenhum banco queria emprestar e ninguém tinha mais dinheiro para gastar.

O problema é que bancos europeus e asiáticos também entraram na farra do Easy Money. Muitas indústrias espalhadas pelo mundo também entraram no jogo. Ou seja: chegou-se num ponto em que os empresários achavam que era muito mais negócio arriscar um investimento no E.M., cujo lucro era mais rápido e fácil do que o investimento na própria produção.

Imagine-se então, só para dar um exemplo, as montadoras de automóveis (daqueles carros que John comprou): a indústria automobilística, que também investiu no E.M., perdeu em vários flancos: nas reservas que viraram pó; na quebradeira das concessionárias onde os “Johns” compraram seus carros e na óbvia falta de compradores. E, claro: os milhares de carros usados que os “Johns” venderam para tentar quitar as dívidas inundaram o mercado e fizeram os preços despencarem...

Endividadas, sem reservas, sem compradores e sem lucros, como poderiam as indústrias sobreviver? Resultado: demissão dos funcionários. Estes funcionários então viraram desempregados que pararam de consumir, o que piorou ainda mais a situação.

Ao contrário do chamado “ciclo virtuoso” explicado acima, entrou-se no do “ciclo vicioso”: trabalhadores demitidos; os bancos negando empréstimos; trabalhadores sem dinheiro para gastar; o comércio sem vender; as indústrias quebrando; mais desemprego; os imóveis encalhados e sem liquidez; a construção civil parada...

Enfim, foi disseminado um sentimento generalizado entre os consumidores: a palavra “crise”, que fez todo mundo (mesmo quem tinha renda) segurar o dinheiro em vez de gastar. Tal sentimento coletivo fez surgir uma palavra ainda pior do que a “crise”: recessão. Na “hierarquia” econômica, pior do que a recessão só a depressão, como a de 1929. E a “depressão” no âmbito econômico não está longe daquela mais conhecida no campo da psicologia. Sim: na economia também reside um forte fator psicológico – seja na euforia ou seja na crise.

Neste contexto, para tentar melhorar o “clima econômico”, os governos começaram a criar mecanismos para que os créditos bancários voltassem a funcionar. E o remédio imediato foi a injeção de muito dinheiro nas instituições financeiras para que os bancos voltassem a emprestar dinheiro principalmente para as indústrias em dificuldades.

(Publicado originalmente no Portal Nassif em 22 de setembro de 2009.)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Antes de julgar Nelsinho Piquet, leia isto.

Virou moda a crucificação do Nelsinho Piquet. E desconfio que parte dos petardos que o jovem piloto tem recebido seja herança da convivência nada pacífica que seu pai teve com a imprensa em geral na sua época de piloto - ao contrário de Senna, um craque inclusive na promoção da sua imagem. Mas esta é uma outra história que não vem ao caso.

Concordo com quem está indignado tanto com o chefe da equipe Renault quanto com a atitude de Nelsinho Piquet, que confessou que bateu seu carro de propósito para paralizar a corrida e favorecer seu companheiro de equipe. Não quero, aqui, defender ou justificar a atitude (errada) de Nelsinho. Mas antes de algumas pessoas aparecerem aqui para atacar o piloto brasileiro, é bom que se diga que sua burrada não é sequer inédita ou mais grave do que já rolou na história do automobilismo. Nem mesmo a confissão de que o ato foi deliberado é novidade...

Não sei se alguns comentaristas de plantão têm memória curta ou se simplesmente desconhecem a história não muito remota da F1. Ou então cometem aquela velha mania do "moralismo seletivo" tão comum na nossa imprensa, ou seja, de deixar patente que os erros dos seus desafetos são piores que os erros dos seus protegidos.

Quer ver só?

No último GP (Japão) de 1989, o francês Alain Prost (McLaren) liderava o campeonato e só poderia ser alcançado por pontos por Ayrton Senna (também McLaren). Obviamente, se ambos saíssem da corrida, o líder do campeonato seria o campeão. Mas eis que, quase ao final da corrida, Senna tentou a ultrapassagem em cima do Prost, que deliberadamente "fechou a porta" para provocar um acidente. Prost saiu da corrida e Senna, após ser empurrado pelos fiscais, continuou; parou no box para trocar o aerofólio e acabou vencendo a corrida. Venceu, mas não levou. Porque por conta de uma "patriotada" do presidente da FIA na época (o francês Jean-Marie Balestre), Senna foi desclassificado por ter recebido "ajuda externa" dos fiscais e por ter "cortado caminho" numa ultrapassagem. Resultado: Prost foi campeão. Confira no link abaixo:

No ano seguinte, 1990, no mesmo GP do Japão, a situação no campeonato era inversa: Senna (McLaren) liderava o campeonato e só poderia ser alcançado por Prost (já na Ferrari). E Senna revidou a deslealdade bem na largada. Ambos saíram da pista e Senna sagrou-se campeão. Eis o link:

A melhor resposta para quem duvida que a manobra de Senna tenha sido deliberada está no próprio site "Globoesporte" (Globo):

"Depois do acidente, Prost reclamou muito da manobra, mas de nada adiantou. Mais tarde, Senna confessaria numa entrevista coletiva que bateu deliberadamente, como forma de vingança ao que lhe acontecera em 1989."

Confira no link:

Ante os fatos expostos, se tivéssemos que pôr na balança as gravidades dos pecados cometidos, seria conveniente raciocinar:

- Tanto Senna quanto Prost agiram por contra própria; cometeram uma deslealdade que pôs em risco a própria vida e a do adversário; cada qual agiu de modo a favorecer a si mesmo, "só" com a vitória no campeonato mundial; a deslealdade afetou diretamente o resultado do campeonato.

- Nelsinho Piquet agiu a mando do dono da equipe; cometeu uma delealdade que pôs em risco sua própria vida; agiu de modo a favorecer seu companheiro de equipe e com todo um prejuízo pessoal; ao que tudo indica, a delealdade pouco (ou nada) vai afetar o resultado do campeonato.

(Post originalmente publicado no Portal Nassif em 15 de setembro de 2009. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Andam confundindo pandemia com pandemônio

Passado o princípio de pânico ante a pandemia da chamada “gripe suína”, o quadro que temos hoje é bem mais tranquilizador do que o alarmismo advindo dos primeiros casos no México. Pelo que atestam os especialistas, o vírus A(H1N1) não chega a ser tão nefasto como sugeria a sua estranheza inicial. Hoje, sabemos que tanto pelos sintomas quanto pelos óbitos causados pelas complicações da doença (principalmente a pneumonia), a “gripe suína” não é mais grave ou menos grave do que aquela gripe “tradicional” causada pelo vírus conhecido genericamente como “influenza sazonal”. Isto sem contar os diversos outros tipos de vírus cuja proliferação é mais intensa no inverno. 

Segundo informação do Ministério da Saúde, ainda é cedo para especular sobre os efeitos futuros (mutação, agressividade etc.) do novo vírus, mas o fato é que, hoje, o vírus A(H1N1) entrou numa espécie de “competição” com a influenza sazonal. Isto significa que, neste inverno de 2009, somadas a gripe comum e a “gripe suína”, não temos, em termos relativos, um número muito maior de pessoas gripadas em comparação com o inverno de 2008. Da mesma forma, neste ano, o número de mortes causadas pelas complicações da gripe não é, na comparação com 2008, algo alarmante. Vale frisar: “mortes causadas pelas complicações da gripe” não é o mesmo que dizer “mortes causadas pelo vírus da gripe”. O vírus da gripe, diferente do que alguns setores da imprensa insistem em sugerir, não mata. O que pode matar, isto sim, é a desinformação. 

 O que temos lido e assistido na imprensa nos últimos dias em relação a nova gripe são enfoques estritamente sensacionalistas que em nada ajudam a preocupação do Ministério da Saúde de transmitir informação e tranquilidade à população. Em vez disso, ocupam o noticiário nacional com as “mortes causadas pela gripe suína (sic)”, a correria aos hospitais, a fragilidade do sistema de saúde pública e a revolta da população. Ora, não seriam tais notícias os fatores fomentadores de toda essa intranquilidade e caos? É o caso de se questionar: qual a real necessidade de um cidadão comum ser informado que “a gripe suína está matando”? Não seria mais sensato “bombardear” a população com dicas sobre a higiene pessoal e hábitos alimentares saudáveis? Ao que parece, andam confundindo “pandemia” com “pandemônio”, com a prevalência deste último. Chegou-se ao cúmulo de o noticiário televisivo mostrar um estádio de futebol com quase toda a torcida usando máscaras para “proteção contra a gripe”, como se residisse sensatez em tal providência... Até onde chegará, por parte da mídia, a propaganda da desinformação e estupidez? Cadê o papel social da imprensa? 

Nos países mais desenvolvidos em que o A(H1N1) se espalhou, o clima que ora impera é de tranquilidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a nova gripe chegou forte (quando então era inverno por lá), o noticiário foi muito mais informativo do que alarmista. Não houve, portanto, o enfoque dramático como este com que a imprensa brasileira tem tratado do caso. O resultado é que a população norte-americana, no geral, continuou levando uma vida normal a tal ponto que, hoje, não há qualquer notícia; qualquer vestígio traumático da passagem da “gripe suína” pela América do Norte, onde ocorreram os primeiros casos. 

No mais, deixo aqui os links da esclarecedora entrevista que o ministro da saúde, José Gomes Temporão, falando sobre a nova gripe, concedeu ao programa do Jô Soares:

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A tragédia da educação em São Paulo

São Paulo tem tido um desempenho medíocre no Exame Nacional de Ensino Médio, o Enem. Este dado, posto assim no contexto sofrível da educação (pública e privada) no Brasil, passa despercebido. Mas não deveria. Afinal, São Paulo é, disparado, o Estado mais rico da Federação. A despeito disto, as escolas localizadas no Estado (computadas as públicas e privadas) obtiveram, na média geral, o sexto lugar no ranking nacional.

O alarme para o fraco desempenho dos alunos paulistas pode ser dado na própria lógica buscada na estatística: quanto melhor o nível socioeconômico do estudante, maior a chance de se obter um bom desempenho no âmbito nacional. Pois não seria óbvio que tal fator ajudasse os estudantes do Estado de São Paulo? Ao contrário disto, a escola estadual paulista mais bem posicionada no ranking do Enem está numa longínqua 2.596ª posição. E poderia ser pior. Pois segundo reportagem da Folha de São Paulo, o diretor da tal escola (Escola Lúcia de Castro Bueno, em Taboão da Serra) só conseguiu tal "façanha" porque vai contra as orientações da Secretaria Estadual de Educação que, segundo ele, "só atrapalha". E outra reportagem da Folha já apontava, um ano antes, que o pífio desempenho de São Paulo no ENEM 2008 conseguiu ser pior do que em 2007, quando a melhor escola estadual de SP emplacou a 913ª posição.

Outro fator preponderante está no ranking das 20 melhores escolas do Brasil: São Paulo emplacou apenas quatro escolas, sendo que a melhor delas aparece em modesto oitavo lugar. A coisa piora se formos analisar o total de escolas avaliadas em cada Estado. Só de pegar a região Sudeste, já dá para se ter uma idéia da discrepância:

Espírito Santo: 470 escolas avaliadas;

Rio de Janeiro: 2.073 escolas avaliadas;

Minas Gerais: 2.913 escolas avaliadas;

São Paulo: 5.923 escolas avaliadas.

Ora, se conduzirmos o fato para o campo da probabilidade matemática, a coisa toma uma dimensão escandalosa: em número de escolas avaliadas, São Paulo tem quase o dobro de Minas Gerais, então o segundo maior Estado a oferecer escolas para o crivo do Enem. Atente-se ainda para o fato de que o número de escolas avaliadas em São Paulo (5.923) é maior do que a soma dos outros Estados do Sudeste, ou seja, 5.456 escolas avaliadas. Veja que Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, juntos, puseram 12 escolas no ranking das 20 melhores do Brasil, contra apenas 3 de São Paulo.

E se levarmos em conta as 100 melhores escolas avaliadas no ranking, a coisa fica mais turva ainda para as instituições de ensino localizadas em São Paulo, que aparecem em terceiro lugar, com 20 escolas - em comparação com o Rio de Janeiro, com 29 escolas entre as 100 melhores, ou Minas Gerais, com 23 escolas.

Diante dos fatos aqui analisados, parece claro que alguma coisa (não) acontece na educação em São Paulo que precisa ser urgentemente revisto. Espero que tal problema não descambe, como sempre, para a peleja política que mira 2010 – fator, aliás, que tem equivocadamente tirado os holofotes das discussões dos grandes problemas nacionais, como a já tradicional má vontade política para curar nossos abismos educacionais. E para a cura do mal, não são necessárias mágicas ou grandes esforços de criatividade: basta o governante seguir o que prescreve o capítulo III da Constituição Federal.

Fontes:

UFU – Universidade Federal de Uberlândia

UOL

INEP

Folha

(Publicado no Portal Nassif em 04 de maio de 2009)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

The Dark Side of Moon

Este talvez seja o mais enigmático de todos os álbuns já produzidos na história da música moderna, a partir daquilo que o mundo passou a entender como “álbum”, ou seja, uma embalagem contendo uma “bolacha” (disco de vinil) que se constituía como parte integrante do casamento de várias artes que, aqui, dividiríamos em três:

- Design de capa (foto, desenho, pintura etc.);
- Letras das músicas (poesia);
- Conteúdo (música).

A CAPA DO ÁLBUM
A partir desta compreensão, fica fácil entender o porquê deste álbum ser considerado um dos mais perfeitos.

Já no próprio título do álbum, traduzível para ‘O Lado Escuro da Lua’, já temos um suculento enigma que se irradia em mistérios e interpretações. E tal leque interpretativo é sugerido pelo próprio design do famoso prisma transpassado pelo feixe de luz branca que se decompõe no espectro de cores. A título de curiosidade, antes de o Pink Floyd se decidir pelo design da capa, eles fizeram uma viagem ao Egito e tiraram várias fotos das pirâmides. Estas comporiam originalmente a capa - haja vista os mistérios que as cercam. Até que alguém teve a idéia de ilustrar com algo não menos misterioso e fascinante: o prisma com seu espectro de cores.

Ainda sobre a capa, julgo importante publicar aqui um trecho que se encontra na análise da canção Any Color You Like:

"(...) a compreensão do título [Any Color You Like] pode ser buscada na própria capa do álbum. Antes, é conveniente fazer uma breve explicação sobre a imagem publicitária. Quem trabalha com propaganda, sabe que toda e qualquer imagem deve trazer uma “mensagem” ascendente da esquerda para a direita. É neste sentido que os ocidentais lêem; e é neste que os cinegrafistas devem procurar “passear” sua câmera. Mais: tal idéia é buscada também nos gráficos que demonstram, no sentido mais amplo, a evolução de uma empresa: linhas que tendem a “subir” da esquerda para a direita. Assim, as logomarcas ou quaisquer outras figuras que façam referência a determinado produto, tendem a trazer a idéia desta “curva ascendente” – e nunca descendente, o que sugeriria decadência.

Uma vez compreendida tal informação, se você analisar a composição plástica da imagem da capa do álbum, perceberá que ela vai na contramão dessa idéia... Assim, o prisma serve não apenas como um “divisor” entre o feixe monocromático e o espectro de cores, mas também como um divisor de estado de espírito: o primeiro (monocromático) segue na forma ascendente ao passo que o segundo (colorido) sofre uma involução num processo descendente. Ou seja: qualquer que seja a cor que você escolher [sugerido pelo título Any Color You Like], de qualquer jeito a trajetória será ‘down’. "

Nos posts que seguem (abaixo), está dissecado todo o álbum 'The Dark Side of Moon', com uma interpretação muito particular (como, por exemplo, a correlação entre a capa do álbum e as canções). Juntamente, estão todas as letras traduzidas (tradução livre).

Foi ele quem inspirou o álbum?

Impossível falar do 'The Dark Side of Moon' sem citar Syd Barrett. Para muitos, foi ele quem inspirou o álbum.

Pois o guitarrista Syd foi um dos fundadores da banda original e, juntamente com Roger Waters, era o ‘cabeça’ do grupo. Mas ele entrou fundo demais nas drogas e acabou pirando de vez. E foi substituído por David Gilmour em 1968, três anos após o nascimento da banda.
Em 2006, após uma vida reclusa, Syd Barrett morreu aos 60 anos de idade.

O significado de 'Álbum Conceitual'

É muito fácil encontrarmos a expressão álbum conceitual quando nos deparamos com textos a respeito do ‘The Dark Side of Moon’. O que significa isto?
Apesar de oportuna, a expressão ‘conceitual’ talvez não fique clara para a compreensão mais imediata quando tratamos da obra prima do Pink Floyd.

Pois o álbum do Pink Floyd é assim: traz em si uma mensagem; tem princípio, meio e fim. E cada detalhe aparentemente reles da obra deve ser encarado como algo profundo que pode alterar totalmente toda a nossa interpretação em cada releitura que fazemos. Ao longo dos posts, pela ordem, tratarei de esmiuçar o todo álbum - analisando, ponto a ponto, todas as canções. Evidente que, aqui, trata-se de uma interpretação muito particular que, aliás, foi enriquecida por pesquisas em diversos sites do gênero.

Pois o álbum é ‘simetricamente’ composto por 10 canções. Digo ‘simetricamente’ porque as mesmas obedecem tanto à cromografia proposta pela capa quanto à cronologia, ou, o ‘timer’ das canções. Para explicar isto, vamos ordenar as canções em dois blocos. Assim:

1- Speak to Me
2- Breathe
3- On the Run
4- Time / Breathe Reprise
5- The Great Gig in the Sky

6- Money
7- Us and Them
8- Any Colour You Like
9- Brain Damage
10- Eclipse

Da primeira canção, Speak to Me, até a quinta, The Great Gig in The Sky, temos o tempo corrido de aproximadamente 20 minutos. E da sexta canção, Money, até o final da última, Eclipse, temos 23 minutos. No antigo LP (long play de vinil, o popular "bolachão"), tal divisão era mais nítida. Pois as duas metades já vinham bem definidas em cada lado do álbum: A e B. Seria razoável, pois, supor que tenhamos duas metades, ou, fases que assim podem ser compreendidas:

1-Fase monocromática: o mundo idealista desde o nascimento da pessoa até o fim da adolescência.
2-Fase colorida: o mundo materialista da fase adulta até a morte.


Também, seria razoável interpretar a divisão a partir da visão psicodélica da coisa. Desta forma:

1- Fase monocromática: o mundo inocente desde o nascimento da pessoa até o fim da adolescência
2- Fase colorida: o mundo psicodélico da fase adulta até a morte.

O sentido de "O Lado Escuro da Lua"

A ciência nos ensina que a lua tem um lado que nunca é visto da Terra. É por isto que chamam de “Lado Escuro”. Por seu fator enigmático, criaram-se várias lendas em torno do “lado escuro”: discos voadores, seres estranhos etc. O astronauta norte-americano James Lovell, após conhecer o “lado escuro” da lua, teria afirmado: “Papai Noel existe”. Tal frase foi tomada pela crendice popular como metáfora para algo misterioso que Lovell teria avistado – já que “Papai Noel” era um código usado entre os astronautas e a NASA para fazer referência à visão de um possível OVNI. Mas a frase foi dita justamente no Natal de 1968, o que levou os mais céticos a acreditarem que tudo não passou de uma brincadeira do astronauta.
Falando em crendice, ou, coincidência, o fato é que Syd Barrett pirou de vez e saiu definitivamente do Pink Floyd em 1968 – justamente no ano em que a lenda em torno do “lado escuro da lua” se tornara evidenciada pela declaração de um astronauta. Em 1973 o Pink Floyd criaria o “The Dark Side of Moon”, cujo propósito era também homenagear Barrett. O “Lado Escuro da Lua” seria, no fundo, uma metáfora para o “lado escuro” de todo ser humano, ou seja, aquela faceta que carregamos dentro de nós e que nunca é visto pelas outras pessoas.

The Dark Side of the Moon & O Mágico de Oz

As coincidências entre o álbum ‘The Dark Side of Moon’ e o filme ‘O Mágico de Oz’ não se restringem à simples exposição do casamento do som com a imagem. Já ouvi muitas pessoas (que até já assistiram ao filme e curtiram o álbum) dizerem que não captaram coincidência alguma no tal casamento. Isto é compreensível. Quando me deparei pela primeira vez com a sincronia entre o álbum e o filme, captei poucas coincidências – já que havia esquecido boa parte do enredo de ‘O Mágico de Oz’, que assisti lá pelos anos oitenta. Assim, após uma paciente releitura, foi possível observar as coincidências.

E a observação principal: não basta apenas a noção do enredo do filme e a compreensão das letras do álbum ‘The Dark Side of Moon’. É necessário, antes de tudo, captar a mensagem; a leitura filosófica de ambos... Só assim fica mais nítida a perfeita "simbiose".

Bom, chega de papo e vamos direto ao que interessa: clique AQUI e boa viagem!

'The Dark Side of the Moon' – Uma análise geral

Conforme já foi dito, o álbum dito ‘conceitual’ obedece a todo um enredo embebido por um preceito filosófico. E tal enredo é exatamente o traçado de uma vida humana – desde o seu nascimento (com ‘Speak to Me’/ ‘Breathe’) até a morte (‘Eclipse’). Também foi mencionado o fato de o álbum ter sido inspirado em Syd Barrett – mais notadamente em ‘Brain Damage’. Mas há também uma pincelada biográfica de Roger Waters, principalmente na canção ‘Us and Them’ (“Nós e Eles”). Mas no seu ‘todo’, o álbum encaixa-se na vida das pessoas comuns. Até porque, como proclama o próprio trecho de ‘Us and Them’: “And after all we're only ordinary men” (“E apesar de tudo somos todos pessoas comuns”).

Quem já teve a oportunidade de analisar aquilo que era chamado ‘long play’ (o disco de vinil, ou, o popular “bolachão”), sabe que cada lado traz mais "claramente" a divisão: no lado A, temos a fase monocromática; e no lado B, a fase colorida. Na chamada “Era do CD”, por motivos óbvios, tal divisão perdeu o sentido...

Para melhor compreensão, vamos partir para cada título do álbum. Lembre-se que, também conforme foi dito, as letras se dividem em dois blocos, ou, fases:
1- Fase monocromática (espiritual, “ingênua”, subjetiva);
2- Fase colorida (materialista – ou psicodélica – realista, objetiva).

Vamos partir então para os títulos do álbum...
LETRAS, TRADUÇÕES e ANÁLISE
(Clique sobre cada título)

Fase monocromática

1- Speak to Me (“Fale para mim”) – Fase uterina até o nascimento;

2- Breathe (“Respire”) – Nascimento; os primeiros passos;

3- On The Run (“Em Fuga”) – Os perigos que espreitam;

4- Time (“Tempo”) – O momento de ir à luta;

5- Breathe / Reprise – As amarras (familiar, sentimental etc) que ainda prendem;

6- The Great Gig in The Sky (“O Grande Espetáculo no Céu”) – O contato com o místico (em contraponto ao medo da morte).

Fase colorida

7- Money (“Dinheiro”) – A queda aos encantos do mundo real – e materialista;

8- Us and Them (“Nós e Eles”) – O contato com as mazelas humanas; as indiferenças; a guerra;

9- Any Colour You Like (“Qualquer cor que você queira”) – O livre arbítrio de escolher o caminho;

10- Brain Damage (“Dano Cerebral”) – A loucura;

11- Eclipse – Todas os experimentos da vida – até a morte.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Eclipse

Eclipse
(Composição: Waters)

All that you touch
And all that you see
All that you taste
All you feel
And all that you love
And all that you hate
All you distrust
All you save
And all that you give
And all that you deal
And all that you buy
beg, borrow or steal
And all you create
And all you destroy
And all that you do
And all that you say
And all that you eat
And everyone you meet
And all that you slight
And everyone you fight
And all that is now
And all that is gone
And all that's to come
and everything under the sun is in tune
but the sun is eclipsed by the moon.

[There is no dark side of the moon really. Matter of fact it’s all dark.]

Tradução

Eclipse

Tudo que você toca
Tudo que você vê
Tudo que você experimenta
Tudo que você sente
Tudo que você ama
Tudo que você odeia
Tudo que você desconfia
Tudo que você salva
Tudo que você doa
Tudo que você negocia
Tudo que você compra
mendiga, empresta ou rouba
E tudo que você cria
E tudo que você destrói
E tudo que você faz
E tudo que você diz
E tudo que você come
E todos que você conhece
E tudo que você despreza
E com todos que você briga
E tudo que é agora
E tudo que já passou

E tudo que virá
E tudo está alinhado com o Sol
Mas o Sol está eclipsado pela lua

[Na realidade não existe o lado escuro da lua; no fundo, é tudo escuro]

Análise

Para melhor analisar esta canção, torna-se conveniente virá-la de ponta-cabeça, ou seja, iniciar pelo final da letra – no qual está a chave para sua compreensão: “E tudo está afinado sob o sol / Mas o sol está eclipsado pela lua”. E no final ainda encontramos a “voz de fundo” com a frase-chave de autoria do porteiro Jerry Driscoll, do estúdio Abbey Road: “Na realidade não existe lado escuro da lua; na verdade é tudo escuro”.

Neste raciocínio, presume-se que “o sol eclipsado pela lua” é o eclipse solar – raríssima ocasião em que o sol, a lua e a Terra estão alinhados, nesta ordem. Se é verdade que apenas alguns pontos da Terra são “contemplados” com o eclipse total, o importante é levarmos em consideração a metáfora do cenário. E o que enxergamos neste cenário? Ora, quando se encontram alinhados, a lua, a despeito de se tornar negra na frente do sol, deixa a Terra igualmente na penumbra. Encerramos, pois, com o eclipse total concomitante com os batimentos cardíacos que vão paulatinamente baixando de intensidade até a morte.

Uma vez compreendido o sentido do ‘Eclipse’, iniciamos por focar a letra – na qual Waters elencou todos os sentimentos humanos... E ante tais sentimentos expressos, torna-se inevitável fazer uma analogia com aquele “filme da vida em um segundo” que, dizem, acontece no último segundo da vida de uma pessoa. Analogamente, a letra não passa de uma retrospectiva de tudo que vimos ao longo do álbum: desde os primeiros sentimentos ‘palpáveis’ de uma vida jovem, em 'Breathe' (tocar, enxergar; experimentar, amar); passando pela noção de tempo tocada em 'Time' (o que é agora; o que passou; o que virá) e pela fase mercenária em ‘Money’ (mendigar, negociar, comprar) e chegando à violência implícita em ‘Us and Them’ (brigar, destruir)...

Conforme as análises anteriores (Breathe e Time), o sol aparecia como ‘entidade’ positiva e a lua como entidade negativa... No primeiro caso (em ‘Breathe’), vimos o “aconselhamento” para o coelho cavar sua toca e esquecer o sol; depois, em ‘Time’, vimos a pessoa correndo para tentar alcançar o sol quando este já estava se pondo... Afinal, a letra já tinha alertado: “você perdeu o tiro de partida”, ou, “você já foi tarde”. O sol nasceria de novo atrás da pessoa, que teria nova chance de alcançá-lo – porém a pessoa estaria mais velha e sem fôlego para tentar o feito...

E eis que, em ‘Eclipse’, encontramos a confirmação desta “tese” (o sol como parte positiva e a lua como parte negativa) – mas numa conclusão muito mais cruel esboçada nos dois últimos versos: se é verdade que tudo na vida está alinhado com o sol (todas as atitudes do homem; o presente, o passado e o futuro), então temos que imaginar que estamos diante de um metafórico eclipse solar – em que a lua interpõe-se entre o Sol e a Terra, quando temos a escuridão total...
Veja a sutileza de Waters em sua ácida crítica ao establishment que já fora detectada em ‘Breathe (em que a entrega à maré é a forma mais rápida de morrer espiritualmente): o perfeito alinhamento entre o sol, a lua e a Terra simboliza todo o nosso universo humano alinhado com o “estado das coisas”. Mas é o tal alinhamento que traz o eclipse, ou seja, que determina a escuridão total. Desta forma, podemos compreender a frase final:
“Na realidade não existe o lado escuro da lua; no fundo, é tudo escuro”.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O Escravo de Paulo Coelho

Antônio Walter Sena, o 'Toninho Buda'

“Os Vampiros são às vezes bons e às vezes maus. E às vezes bons e maus”.

Esta epígrafe do livro “Manual Prático do Vampirismo”, que Paulo Coelho supostamente teria escrito, bem poderia também epigrafar esta incrível história que, graças ao “drible da vaca” que Fernando Morais (autor da biografia ‘O Mago’) deu no seu biografado, todo mundo pôde conhecer – e que agora eu repasso neste artigo.

Há um engenheiro aqui em minha cidade chamado Antônio Walter Sena Jr, de 58 anos. Se você chegar aqui e procurar por este nome, quase ninguém vai saber responder... Mas se você perguntar por "Toninho Buda", a coisa melhora um pouco. Agora, se eu disser que Toninho Buda foi “escravo” de Paulo Coelho, então a coisa esquenta.

Toninho Buda é uma figura fantástica que se popularizou nos anos oitenta em shows nos quais aparecia como performático; declamando poemas e fazendo vivas à Sociedade Alternativa. Embora "porra-louca", Toninho não era um cidadão inconseqüente... Pés no chão (ou quase isto), ele nunca dispensava exercícios físicos e era figurinha carimbada nas maratonas – seja em Juiz de Fora ou seja em Nova York.

No início dos anos oitenta, Toninho montou um restaurante macrobiótico em Juiz de Fora e passou a ministrar palestras gratuitas sobre os benefícios de uma alimentação saudável. Foi numa dessas palestras que conheci Toninho. Lembro perfeitamente das suas preocupações já naquela época: os perigos da química nos alimentos; o desenfreado uso dos agrotóxicos...

Quando esteve em Juiz de Fora para se apresentar num dos memoráveis festivais de rock da cidade, Raul Seixas, acompanhado do seu parceiro Paulo Coelho, resolveu experimentar o rango daquele recanto “macrô" da rua São Mateus. Foi ali que nasceu a forte amizade entre Raul, Paulo e Toninho.

Pouco tempo depois daquele encontro em Juiz de Fora, Toninho, a pedido de Paulo Coelho, escreveu ‘Manual Prático do Vampirismo’. Competente na escrita, ele gastou apenas três dias e meio para concluir a obra e entregar para o seu amigo Paulo Coelho providenciar a edição. A co-autoria seria, pois, uma interação de competências: Toninho entraria com a criação intelectual e Paulo entraria com seus ótimos contatos editoriais no Rio.

Alguns meses depois, ao folhear o Jornal do Brasil, Toninho leu a boa nova: o livro seria lançado num hotel de luxo do Rio. O correio teria atrasado na entrega do convite ao autor, que pegou um ônibus e partiu para integrar a festa do lançamento. Toninho chegou à festa antes de Paulo. Pegou um livro no stand e ficou maravilhado com o resultado; com o acabamento... Mas quando começou a folhear a obra, Toninho começou a ficar nervoso; e deprimiu-se com a trágica descoberta: Paulo Coelho era o verdadeiro “vampiro mau”. Em nenhuma página; em nenhum cantinho de rodapé aparecia qualquer menção a Toninho.... Daí caiu a ficha: o correio não tinha atrasado na entrega do convite... porque não existia convite! Pois Paulo Coelho simplesmente roubara a criação do engenheiro. A dramática situação de Toninho talvez só um escritor iniciante entenderia: sentir-se um penetra na festa de lançamento do seu próprio livro. O único valor que Toninho recebeu pelo livro foi simplesmente este: uma refeição.

Algum tempo depois, Toninho foi contratado por Paulo Coelho para a famosa viagem à Espanha (Caminho de Santiago). A função do contratado, que ganharia 200 dólares por mês, seria ajudar na feitura do livro que seria o pontapé inicial para que o “mago” se tornasse um dos maiores vendedores de livros do planeta: “O Diário de Um Mago”. Na ocasião, Paulo gostava de repetir uma frase de Nelson Rodrigues: “O dinheiro compra até amor sincero”. Quando novamente “caiu a ficha” de que estava sendo explorado por um cínico incorrigível, Toninho Buda resolveu abandonar a idéia da Sociedade Alternativa e voltou a ser engenheiro em Juiz de Fora.
Consciente de que ninguém acreditaria na sua história, Toninho optou por guardar segredo sobre a verdadeira face de seu “amigo”. Mas quis o destino que um golpe audacioso do escritor Fernando Morais, biógrafo autorizado de Paulo Coelho, trouxesse toda a verdade à tona – e contra a vontade do biografado.

Acontece que Fernando Morais teve carta branca do biografado para buscar as fontes da sua pesquisa. Mas o que Paulo Coelho não esperava era que Morais, inadvertidamente, fosse descobrir um baú escondido no quartinho de empregada de um imóvel no Rio. O baú estava lacrado e constava no testamento do “mago” da seguinte forma: tinha que ser imediatamente incinerado logo após a morte de Paulo Coelho. O motivo era óbvio: ali continha muitas verdades impublicáveis. Entre vários escritos, Fernando Morais descobriu que Paulo Coelho sempre se referia a Toninho Buda como “meu escravo” – revelação esta que surpreendeu (e chocou) o próprio Toninho.

Enfim, opto por encerrar este artigo num estilo bem paulo-coelhiano: “num golpe mágico, quis o destino que a força da verdade abrisse o baú para tomar vida na própria biografia do mentiroso”.

Este artigo no blog do Luis Nassif:
http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=8668

Também na home page do próprio Fernando Morais, biógrafo de Paulo Coelho:
http://www.fernandomorais.com.br/omago/imprensa.php?id_noticia=265

Saiba mais sobre Toninho Buda:
http://www.toninhobuda.com/

Toninho Buda sendo entrevistado pela Rede Globo:
http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL592189-7084,00.html