terça-feira, 3 de junho de 2008

Breathe

Breathe ..............................................................Respire
Composição: Waters, Gilmour, Wright

Breathe, breathe in the ar................................Respire, inspire o ar
Don't be afraid to care...............................Sem receio de se envolver
Leave but don't leave me.................................Vá mas não me deixe
Look around and choose your own ground....Olhe em sua volta e escolha seu próprio chão
For long you live and high you fly......Para que você tenha uma vida longa e voe alto
And smiles you'll give and tears you'll cry......E sorrisos você dará e lágrimas você chorará
And all you touch and all you see..........E tudo que você tocar e tudo que você enxergar
Is all your life will ever be........................É tudo que a sua vida sempre será

Run rabbit run...........................................Corra coelho corra
Dig that hole, forget the sun,...................Cave essa toca, esqueça o sol,
And when at last the work is done....E quando finalmente o trabalho esitver concluído
Don't sit down it's time to dig another one...Não descanse é hora de cavar outra
For long you live and high you fly.......Para que você tenha uma vida longa e voe alto
But only if you ride the tide........................Mas só se você entregar-se à maré
And balanced on the biggest wave...........E equilibrar-se na onda mais alta
You race towards an early grave..........Você disputa a corrida para a sepultura precoce.


Análise

Na internet, encontrei várias traduções, ou, versões diferentes para esta letra. Eu nunca ousaria dizer que estão equivocadas. É uma questão de interpretação da letra. Afinal, a variedade interpretativa é que dá graça à arte.

Assim, alguém pode questionar, por exemplo, por que não traduzi o refrão “For long you live and high you fly” para “Por mais que você viva (...)”, que inunda a internet.
Bom, a explicação está na parte mais repulsiva da gramática. Se iniciarmos uma frase com uma conjunção concessiva “por mais que”, então teremos que admitir que estamos diante de uma oração subordinada adverbial concessiva. Neste caso, cadê a subordinação? Não há. Assim, o lógico é admitir que o refrão, posto estrategicamente ao meio de cada estrofe, finaliza (com ironia até) as idéias contidas nas orações antes dela. Confuso, não? Mas vou tentar melhorar este raciocínio com a interpretação da letra. Daí você vai perceber o quanto ela foi bem construída.

Conforme já foi dito, ‘Breathe’ está dividida em duas estrofes (conforme o site oficial do Pink Floyd). E estas foram cuidadosamente elaboradas num antagonismo: a primeira é um aconselhamento positivo (aparentemente ingênuo e subjetivo) ao passo que a segunda é um aconselhamento negativo (malicioso e realista). Voltarei a este raciocínio mais para diante.

Bom, a canção segue a lógica cronológica do 'The Dark Side of Moon’. Ou seja, como estamos no começo do álbum, supõe-se que faz referência a um jovem que começa a dar seus primeiros passos na vida – e que recebe o conselho de uma pessoa mais velha, ou, mais experiente. O primeiro conselho é singelo, mas poderoso: “respire, inspire o ar”. A respiração é o primeiro ato da vida e é a única faculdade da qual os seres aeróbios não podem preterir. Em seguida, a letra diz para o jovem não ter medo de ousar; de partir.... A frase “Don’t be afraid to care” tem sido traduzida para “sem receio de se preocupar” – o que torna a expressão meio sem sentido. O “to care” traz o sentido do relacionamento; do envolvimento com o outro. Pois muitas pessoas têm medo de se entregar; de se envolver numa relação exatamente pelo medo de, no fim das contas, sobrevierem os possíveis ferimentos; os sofrimentos; as mágoas... Assim, o sentido da frase é um encorajamento para pessoa não temer os relacionamentos humanos. Em seguida, vem a experessão que reforça a idéia deste encorajamento – “vá”! –, com uma ressalva: “mas não me deixe”. Isto parece refletir um desejo muito comum dos pais, que torcem pela independência dos filhos – mas temem que tal independência se transforme em abandono. Depois vem “olhe em sua volta, escolha seu próprio chão”. Assim, o jovem não deve limitar-se em ficar recluso no seu círculo (mundinho). E vem o refrão que finaliza os aconselhamentos, como se o conselheiro dissesse: “tudo isso que acabei de dizer é para que você viva muito e voe alto”.
O conselheiro segue dando os seus toques: “você vai experimentar todas as emoções possíveis (na letra metaforicamente resumidas em "sorrir e chorar"); viverá toda a realidade ("tocar e enxergar"). E isto será o bastante para você traçar a sua vida.

E vem a segunda estrofe... Sem dó nem pena, o conselheiro quebra a suave subjetividade dos primeiros conselhos e ordena sem vírgulas (o que sugere falta de fôlego): “corre coelho corre”. A analogia com o coelho não foi à toa. Pois o coelho é um animal cuja única virtude vital é a ligeireza e a fertilidade. No mais, só se presta aos desmandos alheios: além de ser a “presa universal” do reino animal, é a cobaia preferida nos experimentos científicos e títere preferível dos mágicos por sua conhecida passividade. Mais: o coelho é o animal que, numa ilusão de ótica, muitos “enxergam” nas manchas da lua. Enfim, a ironia da coisa: é um animal que vive relativamente pouco (em média 7 anos) e que não voa – numa clara contradição ao desejo do conselheiro: “para que você tenha uma vida longa e que voe bem alto”.

A letra prossegue: “Cave essa toca, esqueça o sol / E quando finalmente o trabalho estiver terminado / Não descanse é hora de cavar outra”.
Aqui, o escuro (na imagem da toca, ou, buraco) entra como parte negativa e o sol como a parte positiva (prazer). Quer dizer: não importa o que você faça nesta vida, o importante é trabalhar sem pensar nas coisas boas; nos prazeres. Logo em seguida o refrão: “Para que você viva muito e voe bem alto” – e a ressalva: “Mas só se você entregar-se* à maré / E equilibrar-se na onda mais alta / Você disputa a corrida para a sepultura precoce”.
*Obs.: na letra, a expressão “ride the tide” (cavalgar a maré; ir de acordo com a maré) traz implicitamente o sentido de ‘entrega’.

Este é, enfim, um final irônico dos aconselhamentos: a entrega à maré e às altas ondas do mercenarismo desenfreado é também uma entrega à morte prematura. Aqui, a imagem de um surfista entregando-se perigosamente à maré para pegar as ondas mais altas entra não só como simples metáfora para o establishment, mas também para simbolizar a influência negativa da lua (que rege as marés) que, aliás, também parece reger o álbum.
Veja que a morte, aqui, não seria necessariamente a representação física da mesma, mas sim a morte espiritual do indivíduo. Ou seja: uma vida insossa sem importar-se com os fatores existenciais é também uma forma de morrer.

Agora, o mais interessante – e que, até hoje, parece que ninguém sacou: as duas estrofes estão simetricamente interligadas numa espécie de complemento irônico quase que esboçando um antagonismo. É como se os aconselhamentos “suaves” da primeira fossem, no fundo, uma preparação para os aconselhamentos “pesados” e contraditórios do segundo. Assim, juntando as duas estrofes (em cores diferentes para melhor visualisar), teremos:

Respire, inspire o ar (tome fôlego)>
corra coelho corra (sem fôlego)

Sem receio de se envolver (sem medo dos possíveis sofrimentos)>
Cava esse buraco, esquece o sol (sofrimento)

Vá, mas não me deixe >
Quando seu trabalho estiver terminado (você me deixará)

Olhe em sua volta, escolha seu próprio chão >
Não descansa é hora de cavar outro (não há escolha)

Para que você viva muito e voe alto (refrão)

E sorrisos você dará e lágrimas você chorará (experimentará todas as emoções)>
Mas só se você entregar-se à maré (sem emoções)

E tudo que você tocar e tudo que você enxergar >
Equilibrando-se na maior das ondas (na onda, um surfista não pode tocar em nada; e seus olhos ficam à mercê da estrita concentração nas manobras)

É tudo que a sua vida sempre será >
A corrida para a sepultura precoce.

9 comentários:

marco viega disse...

impressionante!! sensacional!!

Luiz Carlos Meneses disse...

Muito bom, cara!
Parabéns!

Spindler disse...

Sinceramente, a melhor análise dessa música que eu já li.
Parabéns!

Anônimo disse...

Eu pergutei sobre o significado de Breathe pro meu primo, ele me disse que era algo relacionado a pressão da gravadora para fazerem novos discos, tente pensar deste modo e ler a letra, faz sentido.

Anônimo disse...

Meu nome é Ricardo.Ainda me recordo alguma tarde qualquer de 1989 quando meu irmão colocava no "system" que tínhamos o vinil do Dark Side Of The Moon. Eu tinha 12 anos. Apenas a melodia das canções me proporcionava um estado reflexivo. Hoje adulto busco decifrar essas "letras incertas". E me causa satisfação saber que canções cujo valor é intrínseco façam parte de um álbum categorizado como "rock" é que é o mais vendido de todos os tempos nessa classificação. Depois da reprise de "Breathe" incluída em "Time" vem apropriadamente "The Great Gig In The Sky" (só de escrever esse nome me arrepio - me vem à mente a espetacular performance vocal de Clare Torry). Aliás, o que não é apropriado nessa obra-prima da música?

Anônimo disse...

Sou o Ricardo que já coentou aqui: Corrigindo, o álbum de rock mais vendido de todos os tempos é "Back In Black" do AC/DC. Dark Side vem logo atrás..

Paulo Bicalho disse...

Sem palavras, serio, desde que comecei a leitura, até agora estou o oposto da tradução da musica, totalmente sem ar
Parabens pelo trabalho, tem me ajudado muito

Matheus disse...

Muito bom!

Parabéns pela análise. Me deixou boquiaberto. Divulgarei o seu material.

Att,
Matheus

Carlos Ximenes disse...

Esta contradição entre as esferas me da a entender que seriam como dois conselhos de pessoas diferentes. A minha impressão é que o primeiro conselho seria como se fosse da mãe, e o segundo do pai. Faz mais sentindo ainda quando lembramos que naquela época as mulheres não tinha grande envolvimento nos negócios, eram talvez mais inocentes.