terça-feira, 9 de setembro de 2008

Eclipse

Eclipse
(Composição: Waters)

All that you touch
And all that you see
All that you taste
All you feel
And all that you love
And all that you hate
All you distrust
All you save
And all that you give
And all that you deal
And all that you buy
beg, borrow or steal
And all you create
And all you destroy
And all that you do
And all that you say
And all that you eat
And everyone you meet
And all that you slight
And everyone you fight
And all that is now
And all that is gone
And all that's to come
and everything under the sun is in tune
but the sun is eclipsed by the moon.

[There is no dark side of the moon really. Matter of fact it’s all dark.]

Tradução

Eclipse

Tudo que você toca
Tudo que você vê
Tudo que você experimenta
Tudo que você sente
Tudo que você ama
Tudo que você odeia
Tudo que você desconfia
Tudo que você salva
Tudo que você doa
Tudo que você negocia
Tudo que você compra
mendiga, empresta ou rouba
E tudo que você cria
E tudo que você destrói
E tudo que você faz
E tudo que você diz
E tudo que você come
E todos que você conhece
E tudo que você despreza
E com todos que você briga
E tudo que é agora
E tudo que já passou

E tudo que virá
E tudo está alinhado com o Sol
Mas o Sol está eclipsado pela lua

[Na realidade não existe o lado escuro da lua; no fundo, é tudo escuro]

Análise

Para melhor analisar esta canção, torna-se conveniente virá-la de ponta-cabeça, ou seja, iniciar pelo final da letra – no qual está a chave para sua compreensão: “E tudo está afinado sob o sol / Mas o sol está eclipsado pela lua”. E no final ainda encontramos a “voz de fundo” com a frase-chave de autoria do porteiro Jerry Driscoll, do estúdio Abbey Road: “Na realidade não existe lado escuro da lua; na verdade é tudo escuro”.

Neste raciocínio, presume-se que “o sol eclipsado pela lua” é o eclipse solar – raríssima ocasião em que o sol, a lua e a Terra estão alinhados, nesta ordem. Se é verdade que apenas alguns pontos da Terra são “contemplados” com o eclipse total, o importante é levarmos em consideração a metáfora do cenário. E o que enxergamos neste cenário? Ora, quando se encontram alinhados, a lua, a despeito de se tornar negra na frente do sol, deixa a Terra igualmente na penumbra. Encerramos, pois, com o eclipse total concomitante com os batimentos cardíacos que vão paulatinamente baixando de intensidade até a morte.

Uma vez compreendido o sentido do ‘Eclipse’, iniciamos por focar a letra – na qual Waters elencou todos os sentimentos humanos... E ante tais sentimentos expressos, torna-se inevitável fazer uma analogia com aquele “filme da vida em um segundo” que, dizem, acontece no último segundo da vida de uma pessoa. Analogamente, a letra não passa de uma retrospectiva de tudo que vimos ao longo do álbum: desde os primeiros sentimentos ‘palpáveis’ de uma vida jovem, em 'Breathe' (tocar, enxergar; experimentar, amar); passando pela noção de tempo tocada em 'Time' (o que é agora; o que passou; o que virá) e pela fase mercenária em ‘Money’ (mendigar, negociar, comprar) e chegando à violência implícita em ‘Us and Them’ (brigar, destruir)...

Conforme as análises anteriores (Breathe e Time), o sol aparecia como ‘entidade’ positiva e a lua como entidade negativa... No primeiro caso (em ‘Breathe’), vimos o “aconselhamento” para o coelho cavar sua toca e esquecer o sol; depois, em ‘Time’, vimos a pessoa correndo para tentar alcançar o sol quando este já estava se pondo... Afinal, a letra já tinha alertado: “você perdeu o tiro de partida”, ou, “você já foi tarde”. O sol nasceria de novo atrás da pessoa, que teria nova chance de alcançá-lo – porém a pessoa estaria mais velha e sem fôlego para tentar o feito...

E eis que, em ‘Eclipse’, encontramos a confirmação desta “tese” (o sol como parte positiva e a lua como parte negativa) – mas numa conclusão muito mais cruel esboçada nos dois últimos versos: se é verdade que tudo na vida está alinhado com o sol (todas as atitudes do homem; o presente, o passado e o futuro), então temos que imaginar que estamos diante de um metafórico eclipse solar – em que a lua interpõe-se entre o Sol e a Terra, quando temos a escuridão total...
Veja a sutileza de Waters em sua ácida crítica ao establishment que já fora detectada em ‘Breathe (em que a entrega à maré é a forma mais rápida de morrer espiritualmente): o perfeito alinhamento entre o sol, a lua e a Terra simboliza todo o nosso universo humano alinhado com o “estado das coisas”. Mas é o tal alinhamento que traz o eclipse, ou seja, que determina a escuridão total. Desta forma, podemos compreender a frase final:
“Na realidade não existe o lado escuro da lua; no fundo, é tudo escuro”.

8 comentários:

Pedro Ivo disse...

Parabéns pela análise,

Fiquei preso na leitura do começo ao fim, por ser tão interessante e bem feita.

Muito obrigado, por transmitir esse conhecimento.

carla_fedasunha disse...

Perfeita análise, acompanhei todas as outras e é a única coisa que posso dizer.

Marcelo disse...

Genial cara, você está de parabéns...li a análise completa e aprendi muito a respeito do álbum, e olha que já leio sobre ele há uns 4 anos.

new disse...

gostei muito desse blog foi um dos melhores que ja vi.achei esta citação de roger iteressante. se acrecentar em algo.um abraço. "Eu não vejo isso (as últimas palavras citadas acima), como um enigma;. O álbum usa o sol ea lua como símbolo a luz e as trevas, o bem eo mal, a força da vida em oposição à força da morte . Eu acho que é uma simples declaração muito dizendo que toda a vida as coisas boas pode oferecer estão lá para nos agarrar, mas que a influência de alguma força escura em nossa natureza nos impede de tomá-los. A canção aborda o ouvinte e diz que se você, o ouvinte são afetadas por essa força, e se essa força é uma preocupação para você, assim sinto-me exactamente o mesmo também. A linha de "Eu te vejo no lado escuro da lua" é-me falar com o ouvinte , dizendo: 'Eu sei que você tem estes maus sentimentos e impulsos, porque eu também e uma das maneiras que eu posso fazer contato direto com você é para compartilhar com vocês o fato de que eu me sinto mal às vezes. "[4]

Marcelo FB disse...

Só depois de ler esse blog pude perceber porque é considerado um dos maiores do mundo, se não o maior. A propósito, ótimo blog! Eu, que nem gosto muito de ler, passei mais de uma hora lendo seu blog, sem parar. Voce escreve muito bem!

Resumindo: O álbum diz que, nao importando o caminho que nos escolhamos, nosso destino sempre será o mesmo, a morte, pois o lado que "pesa" mais é o da lua, ou seja, o da escuridão. Nao importa se formos contra o establishment e seguirmos nossos próprios caminhos para alcançar o nosso sol, um dia o eclipse vira.

Outra comparação interessante foi a com o lado escuro da lua, ou seja, o lado escuro que todos nos temos, mas que esta escondido.

Parabens!

Bruna B. disse...

Obrigada por compartilhar os pensamentos e as ideias!
Abriu minha mente para coisas que eu não havia notado!

NatiBriseis disse...

Bem, Michel, acabei de ler todos os posts a respeito da interpretação deste ábum que, para mim, é a maior de todas as obras primas do âmbito musical.
Sua explanação foi sagaz e você teve sacadas geniais. Extremamente didático e sempre com comentários muito pertinentes. Tudo muito bem amarrado.
Procurei você pelo facebook porque gostaria de acompanhá-lo (não tenho twitter), porém nada.
Todavia, deixo claro que me tornei uma fã e recomendarei seu trabalho.
Feliz ano novo e mais bons posts. sempre.

Natália Briseis

Felipe S. disse...

É incrível como uma música com menos de 3 minutos consegue mostrar tanta coisa