sexta-feira, 27 de junho de 2008

The Great Gig in the Sky

The Great Gig in the Sky ("O Grande Espetáculo no Céu")
(Wright)

[And I am not frightened of dying, any time will do I don’t mind. Why should I be frightened of dying? There’s no reason for it, you’ve gotta go sometime. I never said I was frightened of dying.]

Tradução
[E eu não tenho medo de morrer, qualquer hora pode acontecer, sei lá. Por que eu deveria ter medo de morrer? Não há razão para isso, um dia você vai. Eu nunca disse que eu tinha medo de morrer.]

Análise

O som ‘The Great Gig in the Sky’ é instrumental e diz respeito à morte e à religiosidade, ou, misticismo. Assim como nos outros instrumentais ‘Speak to Me’ e ‘On the Run’, aqui também ouvimos vozes ao fundo (vide transcrição acima) – e que faz parte, conforme já foi explicado, do apanhado de respostas do questionário que Roger Waters formulou. E, claro: aqui aparece o extraordinário vocal de Clare Torry. E tal vocal não foi inserido na canção à toa. Sobre isto falarei mais adiante. Antes, julgo interessante contar uma curiosidade sobre Clare Torry. A cantora inglesa foi convidada pelos produtores do Estúdio Abey Road para uma pequena participação no álbum ‘The Dark Side of Moon’. No princípio, Roger Waters reprovou a participação de Clare Torry. Mas foi voto vencido. Os produtores então puseram a cantora diante do microfone e teriam dito a ela: “Pense na morte; pense no horror... E cante!”. Clare não entendeu bem o que eles queriam, mas cantou o que ela sabia. Gravou rapidamente e foi embora arrasada e se desculpando com todo mundo. Porque achou que tinha ficado horrível aquilo que, até então, era apenas um berreiro descontextualizado; sem acompanhamento algum. Depois, os produtores usaram alguns efeitos disponíveis na época e introduziram o piano de Wright. O resultado, que todos conhecemos, acabou maravilhando Roger Waters.

Pois eu falava do sentido do vocal “desesperador” de Clare Torry. Bom, se você leu acima a parte oral do instrumental (“E eu não tenho morrer...”), vai perceber ali uma visão otimista (por assim dizer) e corajosa a respeito da morte. E tais palavras parecem reproduzir exatamente o que muitas pessoas dizem por aí da “boca pra fora”, ou seja, aquela velha máxima: “medo da morte por que? Um dia todo mundo vai mesmo...”. E no som, logo depois de você ouvir essas palavras, entra o vocal de Clare Torry expressando o horror e passando-nos um sentimento desesperador. E a idéia do álbum é exatamente esta: contrapor o que nós dizemos com aquilo que nós efetivamente sentimos.

Uma outra curiosidade importante: anteriormente intitulado de ‘The Mortality Sequence’ (“A Seqüência da Mortalidade”), resolveram mudar o título para ‘The Great Gig in the Sky’. Na minha opinião, tal mudança teria se dado pelo seguinte fato: o título original (‘The Mortality Sequence’) particularizaria, ou, limitaria a proposição exclusivamente à idéia da morte. Já o título (‘The Great Gig in the Sky’), ao contrário, gera um conceito muito mais amplo – e enigmático, pois nos provoca a pergunta: a que se refere “o espetáculo no céu?”. Assim, podemos pensar em tal “espetáculo” como a mania que o ser humano tem de atribuir ao céu a resposta para todas aquelas questões, ou, crenças nas quais nunca obtivemos uma resposta satisfatória: deus, religiosidade, misticismo, extraterrestres, universo... E, claro, a morte.

E assim, ‘The Great Gig in the Sky’ fecha a primeira fase do álbum. Nos antigos LPs (Long Plays, ou, discos de vinil), este som encerrava o que chamávamos de “lado A”. E “virar o disco”, no caso do ‘The Dark Side of Moon’, não trazia apenas a conotação de mudança de faixa, ou, música. Havia também, no meu entender, uma simbologia que estava claramente estampada na capa do álbum: a mudança do universo monocromático para o universo colorido.

7 comentários:

NatiBriseis disse...

Puta que pariu!
You blow my mind!

JoyceNasc disse...

matou a pau.

JoyceNasc disse...

Matou a pau.

Rodrigo Paz disse...

Uma obra de arte essa música... Mas dizer q o vocal de Clare passa somente medo é limitar demais a obra... Além disso: acho q "medo" na verdade é uma emoção que ela não passa com a sua voz. Podemos dividir o vocal em primeira e segunda parte, sendo a primeira mais "intensa" e a segunda mais "suave". Um pré-conceito de incerteza, e depois um sentimento de alívio em relação ao que é a morte.

Anônimo disse...

Você esqueceu de mencionar a frase no meioda múcia"If you can hear this whispering, you're dying".

Anônimo disse...

Meu nome é Ricardo. Concordo com o Rodrigo Paz. E sua análise é essencialmente perfeita. Discordo de um ponto apenas: O de que as religiões ou o céu jamais responderam satisfatoriamente à questões religiosas ou sobre Deus. Penso que é uma percepção muito pessoal e é inegável que muitas pessoas sem fanatismos serenaram seu espírito ao contato com alguma forma de religiosidade. Institucionalizada ou não. Lembro-me então a maneira resignada com que o famoso filósofo Sócrates enfrentou a morte e numa condição ainda completamente injusta visto ter sido condenado por algo que os poderoso da época já consideravam crime, isto é, abrir os olhos alheios para a nossa própria ignorância...

Simone Vilalva disse...

Eu só acho que ela chegou lá e acompanhou o som, não rolou um calculismo!