quarta-feira, 10 de setembro de 2008

The Dark Side of Moon

Este talvez seja o mais enigmático de todos os álbuns já produzidos na história da música moderna, a partir daquilo que o mundo passou a entender como “álbum”, ou seja, uma embalagem contendo uma “bolacha” (disco de vinil) que se constituía como parte integrante do casamento de várias artes que, aqui, dividiríamos em três:

- Design de capa (foto, desenho, pintura etc.);
- Letras das músicas (poesia);
- Conteúdo (música).

A CAPA DO ÁLBUM
A partir desta compreensão, fica fácil entender o porquê deste álbum ser considerado um dos mais perfeitos.

Já no próprio título do álbum, traduzível para ‘O Lado Escuro da Lua’, já temos um suculento enigma que se irradia em mistérios e interpretações. E tal leque interpretativo é sugerido pelo próprio design do famoso prisma transpassado pelo feixe de luz branca que se decompõe no espectro de cores. A título de curiosidade, antes de o Pink Floyd se decidir pelo design da capa, eles fizeram uma viagem ao Egito e tiraram várias fotos das pirâmides. Estas comporiam originalmente a capa - haja vista os mistérios que as cercam. Até que alguém teve a idéia de ilustrar com algo não menos misterioso e fascinante: o prisma com seu espectro de cores.

Ainda sobre a capa, julgo importante publicar aqui um trecho que se encontra na análise da canção Any Color You Like:

"(...) a compreensão do título [Any Color You Like] pode ser buscada na própria capa do álbum. Antes, é conveniente fazer uma breve explicação sobre a imagem publicitária. Quem trabalha com propaganda, sabe que toda e qualquer imagem deve trazer uma “mensagem” ascendente da esquerda para a direita. É neste sentido que os ocidentais lêem; e é neste que os cinegrafistas devem procurar “passear” sua câmera. Mais: tal idéia é buscada também nos gráficos que demonstram, no sentido mais amplo, a evolução de uma empresa: linhas que tendem a “subir” da esquerda para a direita. Assim, as logomarcas ou quaisquer outras figuras que façam referência a determinado produto, tendem a trazer a idéia desta “curva ascendente” – e nunca descendente, o que sugeriria decadência.

Uma vez compreendida tal informação, se você analisar a composição plástica da imagem da capa do álbum, perceberá que ela vai na contramão dessa idéia... Assim, o prisma serve não apenas como um “divisor” entre o feixe monocromático e o espectro de cores, mas também como um divisor de estado de espírito: o primeiro (monocromático) segue na forma ascendente ao passo que o segundo (colorido) sofre uma involução num processo descendente. Ou seja: qualquer que seja a cor que você escolher [sugerido pelo título Any Color You Like], de qualquer jeito a trajetória será ‘down’. "

Nos posts que seguem (abaixo), está dissecado todo o álbum 'The Dark Side of Moon', com uma interpretação muito particular (como, por exemplo, a correlação entre a capa do álbum e as canções). Juntamente, estão todas as letras traduzidas (tradução livre).

Foi ele quem inspirou o álbum?

Impossível falar do 'The Dark Side of Moon' sem citar Syd Barrett. Para muitos, foi ele quem inspirou o álbum.

Pois o guitarrista Syd foi um dos fundadores da banda original e, juntamente com Roger Waters, era o ‘cabeça’ do grupo. Mas ele entrou fundo demais nas drogas e acabou pirando de vez. E foi substituído por David Gilmour em 1968, três anos após o nascimento da banda.
Em 2006, após uma vida reclusa, Syd Barrett morreu aos 60 anos de idade.

O significado de 'Álbum Conceitual'

É muito fácil encontrarmos a expressão álbum conceitual quando nos deparamos com textos a respeito do ‘The Dark Side of Moon’. O que significa isto?
Apesar de oportuna, a expressão ‘conceitual’ talvez não fique clara para a compreensão mais imediata quando tratamos da obra prima do Pink Floyd.

Pois o álbum do Pink Floyd é assim: traz em si uma mensagem; tem princípio, meio e fim. E cada detalhe aparentemente reles da obra deve ser encarado como algo profundo que pode alterar totalmente toda a nossa interpretação em cada releitura que fazemos. Ao longo dos posts, pela ordem, tratarei de esmiuçar o todo álbum - analisando, ponto a ponto, todas as canções. Evidente que, aqui, trata-se de uma interpretação muito particular que, aliás, foi enriquecida por pesquisas em diversos sites do gênero.

Pois o álbum é ‘simetricamente’ composto por 10 canções. Digo ‘simetricamente’ porque as mesmas obedecem tanto à cromografia proposta pela capa quanto à cronologia, ou, o ‘timer’ das canções. Para explicar isto, vamos ordenar as canções em dois blocos. Assim:

1- Speak to Me
2- Breathe
3- On the Run
4- Time / Breathe Reprise
5- The Great Gig in the Sky

6- Money
7- Us and Them
8- Any Colour You Like
9- Brain Damage
10- Eclipse

Da primeira canção, Speak to Me, até a quinta, The Great Gig in The Sky, temos o tempo corrido de aproximadamente 20 minutos. E da sexta canção, Money, até o final da última, Eclipse, temos 23 minutos. No antigo LP (long play de vinil, o popular "bolachão"), tal divisão era mais nítida. Pois as duas metades já vinham bem definidas em cada lado do álbum: A e B. Seria razoável, pois, supor que tenhamos duas metades, ou, fases que assim podem ser compreendidas:

1-Fase monocromática: o mundo idealista desde o nascimento da pessoa até o fim da adolescência.
2-Fase colorida: o mundo materialista da fase adulta até a morte.


Também, seria razoável interpretar a divisão a partir da visão psicodélica da coisa. Desta forma:

1- Fase monocromática: o mundo inocente desde o nascimento da pessoa até o fim da adolescência
2- Fase colorida: o mundo psicodélico da fase adulta até a morte.

O sentido de "O Lado Escuro da Lua"

A ciência nos ensina que a lua tem um lado que nunca é visto da Terra. É por isto que chamam de “Lado Escuro”. Por seu fator enigmático, criaram-se várias lendas em torno do “lado escuro”: discos voadores, seres estranhos etc. O astronauta norte-americano James Lovell, após conhecer o “lado escuro” da lua, teria afirmado: “Papai Noel existe”. Tal frase foi tomada pela crendice popular como metáfora para algo misterioso que Lovell teria avistado – já que “Papai Noel” era um código usado entre os astronautas e a NASA para fazer referência à visão de um possível OVNI. Mas a frase foi dita justamente no Natal de 1968, o que levou os mais céticos a acreditarem que tudo não passou de uma brincadeira do astronauta.
Falando em crendice, ou, coincidência, o fato é que Syd Barrett pirou de vez e saiu definitivamente do Pink Floyd em 1968 – justamente no ano em que a lenda em torno do “lado escuro da lua” se tornara evidenciada pela declaração de um astronauta. Em 1973 o Pink Floyd criaria o “The Dark Side of Moon”, cujo propósito era também homenagear Barrett. O “Lado Escuro da Lua” seria, no fundo, uma metáfora para o “lado escuro” de todo ser humano, ou seja, aquela faceta que carregamos dentro de nós e que nunca é visto pelas outras pessoas.

The Dark Side of the Moon & O Mágico de Oz

As coincidências entre o álbum ‘The Dark Side of Moon’ e o filme ‘O Mágico de Oz’ não se restringem à simples exposição do casamento do som com a imagem. Já ouvi muitas pessoas (que até já assistiram ao filme e curtiram o álbum) dizerem que não captaram coincidência alguma no tal casamento. Isto é compreensível. Quando me deparei pela primeira vez com a sincronia entre o álbum e o filme, captei poucas coincidências – já que havia esquecido boa parte do enredo de ‘O Mágico de Oz’, que assisti lá pelos anos oitenta. Assim, após uma paciente releitura, foi possível observar as coincidências.

E a observação principal: não basta apenas a noção do enredo do filme e a compreensão das letras do álbum ‘The Dark Side of Moon’. É necessário, antes de tudo, captar a mensagem; a leitura filosófica de ambos... Só assim fica mais nítida a perfeita "simbiose".

Bom, chega de papo e vamos direto ao que interessa: clique AQUI e boa viagem!

'The Dark Side of the Moon' – Uma análise geral

Conforme já foi dito, o álbum dito ‘conceitual’ obedece a todo um enredo embebido por um preceito filosófico. E tal enredo é exatamente o traçado de uma vida humana – desde o seu nascimento (com ‘Speak to Me’/ ‘Breathe’) até a morte (‘Eclipse’). Também foi mencionado o fato de o álbum ter sido inspirado em Syd Barrett – mais notadamente em ‘Brain Damage’. Mas há também uma pincelada biográfica de Roger Waters, principalmente na canção ‘Us and Them’ (“Nós e Eles”). Mas no seu ‘todo’, o álbum encaixa-se na vida das pessoas comuns. Até porque, como proclama o próprio trecho de ‘Us and Them’: “And after all we're only ordinary men” (“E apesar de tudo somos todos pessoas comuns”).

Quem já teve a oportunidade de analisar aquilo que era chamado ‘long play’ (o disco de vinil, ou, o popular “bolachão”), sabe que cada lado traz mais "claramente" a divisão: no lado A, temos a fase monocromática; e no lado B, a fase colorida. Na chamada “Era do CD”, por motivos óbvios, tal divisão perdeu o sentido...

Para melhor compreensão, vamos partir para cada título do álbum. Lembre-se que, também conforme foi dito, as letras se dividem em dois blocos, ou, fases:
1- Fase monocromática (espiritual, “ingênua”, subjetiva);
2- Fase colorida (materialista – ou psicodélica – realista, objetiva).

Vamos partir então para os títulos do álbum...
LETRAS, TRADUÇÕES e ANÁLISE
(Clique sobre cada título)

Fase monocromática

1- Speak to Me (“Fale para mim”) – Fase uterina até o nascimento;

2- Breathe (“Respire”) – Nascimento; os primeiros passos;

3- On The Run (“Em Fuga”) – Os perigos que espreitam;

4- Time (“Tempo”) – O momento de ir à luta;

5- Breathe / Reprise – As amarras (familiar, sentimental etc) que ainda prendem;

6- The Great Gig in The Sky (“O Grande Espetáculo no Céu”) – O contato com o místico (em contraponto ao medo da morte).

Fase colorida

7- Money (“Dinheiro”) – A queda aos encantos do mundo real – e materialista;

8- Us and Them (“Nós e Eles”) – O contato com as mazelas humanas; as indiferenças; a guerra;

9- Any Colour You Like (“Qualquer cor que você queira”) – O livre arbítrio de escolher o caminho;

10- Brain Damage (“Dano Cerebral”) – A loucura;

11- Eclipse – Todas os experimentos da vida – até a morte.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Eclipse

Eclipse
(Composição: Waters)

All that you touch
And all that you see
All that you taste
All you feel
And all that you love
And all that you hate
All you distrust
All you save
And all that you give
And all that you deal
And all that you buy
beg, borrow or steal
And all you create
And all you destroy
And all that you do
And all that you say
And all that you eat
And everyone you meet
And all that you slight
And everyone you fight
And all that is now
And all that is gone
And all that's to come
and everything under the sun is in tune
but the sun is eclipsed by the moon.

[There is no dark side of the moon really. Matter of fact it’s all dark.]

Tradução

Eclipse

Tudo que você toca
Tudo que você vê
Tudo que você experimenta
Tudo que você sente
Tudo que você ama
Tudo que você odeia
Tudo que você desconfia
Tudo que você salva
Tudo que você doa
Tudo que você negocia
Tudo que você compra
mendiga, empresta ou rouba
E tudo que você cria
E tudo que você destrói
E tudo que você faz
E tudo que você diz
E tudo que você come
E todos que você conhece
E tudo que você despreza
E com todos que você briga
E tudo que é agora
E tudo que já passou

E tudo que virá
E tudo está alinhado com o Sol
Mas o Sol está eclipsado pela lua

[Na realidade não existe o lado escuro da lua; no fundo, é tudo escuro]

Análise

Para melhor analisar esta canção, torna-se conveniente virá-la de ponta-cabeça, ou seja, iniciar pelo final da letra – no qual está a chave para sua compreensão: “E tudo está afinado sob o sol / Mas o sol está eclipsado pela lua”. E no final ainda encontramos a “voz de fundo” com a frase-chave de autoria do porteiro Jerry Driscoll, do estúdio Abbey Road: “Na realidade não existe lado escuro da lua; na verdade é tudo escuro”.

Neste raciocínio, presume-se que “o sol eclipsado pela lua” é o eclipse solar – raríssima ocasião em que o sol, a lua e a Terra estão alinhados, nesta ordem. Se é verdade que apenas alguns pontos da Terra são “contemplados” com o eclipse total, o importante é levarmos em consideração a metáfora do cenário. E o que enxergamos neste cenário? Ora, quando se encontram alinhados, a lua, a despeito de se tornar negra na frente do sol, deixa a Terra igualmente na penumbra. Encerramos, pois, com o eclipse total concomitante com os batimentos cardíacos que vão paulatinamente baixando de intensidade até a morte.

Uma vez compreendido o sentido do ‘Eclipse’, iniciamos por focar a letra – na qual Waters elencou todos os sentimentos humanos... E ante tais sentimentos expressos, torna-se inevitável fazer uma analogia com aquele “filme da vida em um segundo” que, dizem, acontece no último segundo da vida de uma pessoa. Analogamente, a letra não passa de uma retrospectiva de tudo que vimos ao longo do álbum: desde os primeiros sentimentos ‘palpáveis’ de uma vida jovem, em 'Breathe' (tocar, enxergar; experimentar, amar); passando pela noção de tempo tocada em 'Time' (o que é agora; o que passou; o que virá) e pela fase mercenária em ‘Money’ (mendigar, negociar, comprar) e chegando à violência implícita em ‘Us and Them’ (brigar, destruir)...

Conforme as análises anteriores (Breathe e Time), o sol aparecia como ‘entidade’ positiva e a lua como entidade negativa... No primeiro caso (em ‘Breathe’), vimos o “aconselhamento” para o coelho cavar sua toca e esquecer o sol; depois, em ‘Time’, vimos a pessoa correndo para tentar alcançar o sol quando este já estava se pondo... Afinal, a letra já tinha alertado: “você perdeu o tiro de partida”, ou, “você já foi tarde”. O sol nasceria de novo atrás da pessoa, que teria nova chance de alcançá-lo – porém a pessoa estaria mais velha e sem fôlego para tentar o feito...

E eis que, em ‘Eclipse’, encontramos a confirmação desta “tese” (o sol como parte positiva e a lua como parte negativa) – mas numa conclusão muito mais cruel esboçada nos dois últimos versos: se é verdade que tudo na vida está alinhado com o sol (todas as atitudes do homem; o presente, o passado e o futuro), então temos que imaginar que estamos diante de um metafórico eclipse solar – em que a lua interpõe-se entre o Sol e a Terra, quando temos a escuridão total...
Veja a sutileza de Waters em sua ácida crítica ao establishment que já fora detectada em ‘Breathe (em que a entrega à maré é a forma mais rápida de morrer espiritualmente): o perfeito alinhamento entre o sol, a lua e a Terra simboliza todo o nosso universo humano alinhado com o “estado das coisas”. Mas é o tal alinhamento que traz o eclipse, ou seja, que determina a escuridão total. Desta forma, podemos compreender a frase final:
“Na realidade não existe o lado escuro da lua; no fundo, é tudo escuro”.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O Escravo de Paulo Coelho

Antônio Walter Sena, o 'Toninho Buda'

“Os Vampiros são às vezes bons e às vezes maus. E às vezes bons e maus”.

Esta epígrafe do livro “Manual Prático do Vampirismo”, que Paulo Coelho supostamente teria escrito, bem poderia também epigrafar esta incrível história que, graças ao “drible da vaca” que Fernando Morais (autor da biografia ‘O Mago’) deu no seu biografado, todo mundo pôde conhecer – e que agora eu repasso neste artigo.

Há um engenheiro aqui em minha cidade chamado Antônio Walter Sena Jr, de 58 anos. Se você chegar aqui e procurar por este nome, quase ninguém vai saber responder... Mas se você perguntar por "Toninho Buda", a coisa melhora um pouco. Agora, se eu disser que Toninho Buda foi “escravo” de Paulo Coelho, então a coisa esquenta.

Toninho Buda é uma figura fantástica que se popularizou nos anos oitenta em shows nos quais aparecia como performático; declamando poemas e fazendo vivas à Sociedade Alternativa. Embora "porra-louca", Toninho não era um cidadão inconseqüente... Pés no chão (ou quase isto), ele nunca dispensava exercícios físicos e era figurinha carimbada nas maratonas – seja em Juiz de Fora ou seja em Nova York.

No início dos anos oitenta, Toninho montou um restaurante macrobiótico em Juiz de Fora e passou a ministrar palestras gratuitas sobre os benefícios de uma alimentação saudável. Foi numa dessas palestras que conheci Toninho. Lembro perfeitamente das suas preocupações já naquela época: os perigos da química nos alimentos; o desenfreado uso dos agrotóxicos...

Quando esteve em Juiz de Fora para se apresentar num dos memoráveis festivais de rock da cidade, Raul Seixas, acompanhado do seu parceiro Paulo Coelho, resolveu experimentar o rango daquele recanto “macrô" da rua São Mateus. Foi ali que nasceu a forte amizade entre Raul, Paulo e Toninho.

Pouco tempo depois daquele encontro em Juiz de Fora, Toninho, a pedido de Paulo Coelho, escreveu ‘Manual Prático do Vampirismo’. Competente na escrita, ele gastou apenas três dias e meio para concluir a obra e entregar para o seu amigo Paulo Coelho providenciar a edição. A co-autoria seria, pois, uma interação de competências: Toninho entraria com a criação intelectual e Paulo entraria com seus ótimos contatos editoriais no Rio.

Alguns meses depois, ao folhear o Jornal do Brasil, Toninho leu a boa nova: o livro seria lançado num hotel de luxo do Rio. O correio teria atrasado na entrega do convite ao autor, que pegou um ônibus e partiu para integrar a festa do lançamento. Toninho chegou à festa antes de Paulo. Pegou um livro no stand e ficou maravilhado com o resultado; com o acabamento... Mas quando começou a folhear a obra, Toninho começou a ficar nervoso; e deprimiu-se com a trágica descoberta: Paulo Coelho era o verdadeiro “vampiro mau”. Em nenhuma página; em nenhum cantinho de rodapé aparecia qualquer menção a Toninho.... Daí caiu a ficha: o correio não tinha atrasado na entrega do convite... porque não existia convite! Pois Paulo Coelho simplesmente roubara a criação do engenheiro. A dramática situação de Toninho talvez só um escritor iniciante entenderia: sentir-se um penetra na festa de lançamento do seu próprio livro. O único valor que Toninho recebeu pelo livro foi simplesmente este: uma refeição.

Algum tempo depois, Toninho foi contratado por Paulo Coelho para a famosa viagem à Espanha (Caminho de Santiago). A função do contratado, que ganharia 200 dólares por mês, seria ajudar na feitura do livro que seria o pontapé inicial para que o “mago” se tornasse um dos maiores vendedores de livros do planeta: “O Diário de Um Mago”. Na ocasião, Paulo gostava de repetir uma frase de Nelson Rodrigues: “O dinheiro compra até amor sincero”. Quando novamente “caiu a ficha” de que estava sendo explorado por um cínico incorrigível, Toninho Buda resolveu abandonar a idéia da Sociedade Alternativa e voltou a ser engenheiro em Juiz de Fora.
Consciente de que ninguém acreditaria na sua história, Toninho optou por guardar segredo sobre a verdadeira face de seu “amigo”. Mas quis o destino que um golpe audacioso do escritor Fernando Morais, biógrafo autorizado de Paulo Coelho, trouxesse toda a verdade à tona – e contra a vontade do biografado.

Acontece que Fernando Morais teve carta branca do biografado para buscar as fontes da sua pesquisa. Mas o que Paulo Coelho não esperava era que Morais, inadvertidamente, fosse descobrir um baú escondido no quartinho de empregada de um imóvel no Rio. O baú estava lacrado e constava no testamento do “mago” da seguinte forma: tinha que ser imediatamente incinerado logo após a morte de Paulo Coelho. O motivo era óbvio: ali continha muitas verdades impublicáveis. Entre vários escritos, Fernando Morais descobriu que Paulo Coelho sempre se referia a Toninho Buda como “meu escravo” – revelação esta que surpreendeu (e chocou) o próprio Toninho.

Enfim, opto por encerrar este artigo num estilo bem paulo-coelhiano: “num golpe mágico, quis o destino que a força da verdade abrisse o baú para tomar vida na própria biografia do mentiroso”.

Este artigo no blog do Luis Nassif:
http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=8668

Também na home page do próprio Fernando Morais, biógrafo de Paulo Coelho:
http://www.fernandomorais.com.br/omago/imprensa.php?id_noticia=265

Saiba mais sobre Toninho Buda:
http://www.toninhobuda.com/

Toninho Buda sendo entrevistado pela Rede Globo:
http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL592189-7084,00.html


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Brain Damage

Brain Damage
(Composição: Waters)

The lunatic is on the grass
The lunatic is on the grass
Remembering games and daisy chains and laughs
Got to keep the loonies on the path

The lunatic is in the hall
The lunatics are in my hall
The paper holds their folded faces to the floor
And every day the paper boy brings more

And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forbodings too
I'll see you on the dark side of the moon

The lunatic is in my head
The lunatic is in my head
You raise the blade, you make the change
you re-arrange me 'till I'm sane

You lock the door
And throw away the key
There's someone in my head but it's not me

And if the cloud bursts, thunder in your ear
You shout and no one seems to hear
And if the band you're in starts playing different tunes
I'll see you on the dark side of the moon.


Tradução

Dano Cerebral

O lunático está no gramado
O lunático está no gramado
Lembrando brincadeiras e guirlandas e risadas
É isso que mantém os malucos no rumo

O lunático está na área
Os lunáticos estão na minha área
O jornal permanece dobrado virado para o chão
E todo dia o jornaleiro traz mais

E se os diques arrebentarem muitos anos antes do tempo
E se lá não tiver nenhuma moradia na colina
E se sua cuca também explodir com esses sombrios presságios
Eu te verei no lado escuro da lua

O lunático está na minha cabeça
O lunático está na minha cabeça
Você levanta a lâmina, você faz a mudança
Você me refaz até eu ficar sóbrio

Tranque a porta
E jogue fora a chave
Há alguém na minha cabeça mas não sou eu

E se a nuvem carregada trovejar em seu ouvido
Você grita e ninguém parecer ouvir
E se a banda em que você está começar a tocar diferentes melodias
Eu te verei no lado escuro da lua.


Com Brain Damage, chegamos ao estágio da loucura – o que nos leva a supor que tal condição seria a cor “escolhida” em ‘Any Color You Like’. Sem sombra de dúvidas, esta canção é uma clara referência de Waters a Syd Barrett, na figura do lunático.

A primeira estrofe remonta à infância de Waters. O gramado em questão, que ficava numa praça no seu trajeto para a escola, é uma imagem recorrente na memória do autor. Pois o que jogava Waters nessa fixação pelo gramado era a tabuleta onde se lia “não pise na grama”, algo que o incomodava. Ou seja: a beleza do gramado florido não é algo para sentir, mas tão-somente para ver. Assim, o ato de pisar e sentir o belo gramado; tirar as margaridas para fazer, vá lá, uma guirlanda* representa não apenas uma reles maluquice, mas principalmente uma subversão às regras impostas pela sociedade.

*Obs.: A expressão ‘Daisy chain’ (“guirlanda” ou “corrente de margarida”) nunca terá uma tradução feliz para o português, já que representa uma distração infantil muito popular na Inglaterra de se prender margaridas ao longo de correntinhas para usar como bijuteria (tiara, colar, pulseira etc). As “Daisy chains” viraram acessórios populares no movimento hippie dos anos sessenta (imagem imortalizada no musical ‘Hair’) e tomaram um fundo psicodélico. “Daisy chain”, inclusive, já fora expressão usada por John Lennon na canção ‘Dear Prudence’ (1968): “The clouds will be a daisy chain”. No mais, há uma lenda inglesa na qual uma fada dava comida misturada com pétalas de margaridas a um príncipe para evitar que ele crescesse e perdesse a sua pureza infantil.

Waters, agora já adulto, imaginando o lunático pisando na grama, acaba se identificando com ele – já que está realizando um desejo reprimido quando criança. Waters então se enxerga menino; vê no maluco sua própria imagem de menino, brincando; colhendo as margaridas para aproveitá-las para algo – já que, de qualquer jeito, elas morrerão. E principalmente isto: vê os sorrisos que, aliás, ele não pôde dar naquele tempo. Enfim, é assim; sorrindo; fugindo das convenções repressivas, que os malucos (e as crianças!) mantém seus respectivos rumos.

Na estrofe seguinte, o letrista começa aos poucos a se aproximar do louco: primeiramente, enxerga o louco numa área; em seguida, enxerga vários lunáticos na SUA área (defronte sua casa). Ali, ao chão, está o jornal intacto com sua capa virada para o chão. Esta imagem decompõe-se em duas vertentes: na primeira, a idéia do jornal dobrado, intacto, remete-nos ao distanciamento com os acontecimentos do mundo (alienação); na segunda, o jornal virado para o chão representa metaforicamente a real posição daqueles que ali são noticiados (líderes mundiais, cientistas, artistas, celebridades etc.). Ou seja: todos ali, dentro do jornal, seriam os verdadeiros loucos – loucura esta reproduzida todos os dias, quando o jornaleiro traz mais jornais...

Na terceira estrofe, temos o caos representado pela inevitável chegada da loucura. Pois de qualquer jeito, os diques (que mantêm a cuca no lugar) arrebentarão – inundando tudo o que estiver em volta. Mas se tal fatalidade acontecer antes do tempo pré-determinado; se não houver nada a ser salvo acima da inundação (na colina); ou mesmo se sua cuca fundir com esses maus presságios, então finalmente você conhecerá o lado escuro da lua. Na introdução deste trabalho, já foi dito o que representa o “lado escuro da lua”. Ali, tivemos a oportunidade de analisar que o “lado escuro da lua” representa o lado desconhecido que habita cada um de nós. E a lua, que vela todo o álbum, entra aqui na sua forma mais notável.... Não foi à toa, pois, que Waters optou pela palavra ‘lunatic’ (“lunático”), que embora seja sinônimo de “louco”, o dicionário nos traz como primeira definição: aquele que sofre a influência da lua.

Na seqüência, o letrista afirma – e reafirma – que, enfim, o lunático está dentro da sua própria cabeça: ‘The lunatic is in my head’. Em seguida, vêm os versos que demandam muita sutileza para a compreensão: ‘Você levanta a lâmina, você faz a mudança / Você me refaz até eu ficar sóbrio’. A lâmina aqui entra como representação da lobotomia, ou seja, reside aqui uma crítica metafórica ao “forçar de barra” na tentativa de tirar a pessoa da loucura, ou, rearranjá-la ao establishment. Na próxima estrofe vêm os versos que mostram o resultado disso... É como se o letrista quisesse dizer: já que você resolveu cometer tal absurdo (fazer a mudança em mim), então, após abrir a minha cabeça (para a “lobotomia”), tranque a porta (minha cabeça) e jogue a chave fora. Isto sugere o trancamento vitalício do “estabelecimento”, ou seja, o isolamento total da cabeça da pessoa de onde, doravante, nada entrará ou sairá. E de que adiantou a mudança se esta trouxe uma irrevogável crise existencial: “há alguém na minha cabeça, mas não sou eu”.

E vêm os versos finais que denotam a conseqüência disso tudo juntamente com a clara alusão a Syd Barrett. A nuvem carregada trovejando sugere uma tempestade (a explosão da cabeça) prestes a eclodir. Neste sentido, conforme vimos nos versos anteriores, como a pessoa teve sua cabeça mudada e trancada, mesmo que ela tente extrapolar suas emoções (gritar), ninguém irá ouvi-la. Então, em vez de explodir, a cuca da pessoa vai “implodir”, ou seja, ela vai pirar de vez. Enfim, vêm os versos finais em referência a Barrett: “E se a sua banda começar a tocar diferentes melodias / eu te verei no lado escuro da lua”. Para entender tal referência às diferentes melodias, torna-se necessário lembrar uma das principais causas da saída de Barrett do Pink Floyd: em alguns shows, quando a banda iniciava os acordes para tocar determinada canção, Barrett trocava as bolas e tocava os acordes de outra canção. Tal problema tornou-se crônico, o que motivou a saída do fundador do Pink Floyd. A referência às diferentes melodias foi, pois, a forma que Waters encontrou para fechar a canção como uma homenagem a Barrett.

Finalmente, vem a espetacular conclusão – e a espetacular homenagem: o fato de a banda (no caso, o Pink Floyd) ter começado a tocar melodias diferentes foi determinante para a saída de Barrett. Mas seriam tais “melodias diferentes” algo essencialmente ruim? Não. O fato de serem “diferentes” do tom do conjunto não significa que eram melodias ruins ou erradas. O que Wateres parece ter tentado dizer é o seguinte: no fundo, o Pink Floyd todo toca “diferente”; e este “diferente” significa o reconhecimento da forte influência estilística que Barrett, apesar da sua saída, continuou exercendo sobre as canções do grupo. Assim, seria como se Waters quisesse dizer diretamente a Barrett: se a banda em que você (ao menos espiritualmente) está começar a tocar melodias diferentes, então eu te verei (estarei contigo) não apenas nesse lado escuro que você conheceu, mas também em todo o álbum construído especialmente para você: ‘The Dark Side of Moon’.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Any Color You Like

Any Color You Like ("Qualquer Cor que Você Desejar")
(Gilmour, Mason, Wright)

Análise

Como todo som puramente instrumental, analisar ‘Any Color You Like’ é tirar leite de pedra. Mas levando-se em conta o título e o contexto em que está inserido no álbum – entre uma canção que fala da guerra (‘Us and Them’) e outra que fala da loucura (‘Brain Damage’), há sim o que analisar (ou “viajar”, como queira...) – a começar pela polêmica sobre a inspiração do título e, claro, pelo impagável som (mais notadamente o solo de David Gilmour) que, no fim das contas, parece nos desnortear (no melhor sentido)...

Há várias teorias desencontradas acerca da origem do título: uma delas diz respeito a Henry Ford, que em 1920 teria soltado uma frase irônica a respeito da sua decisão de, para cortar custos na sua indústria automobilística, produzir os modelos ‘Ford T’ apenas na cor preta. Ford então, acerca desta decisão, teria dito ironicamente: "Agora você pode escolher o automóvel na cor que desejar, contanto que seja o preto”. Verídica ou não, o fato é que a frase virou folclore. E este folclore teria inspirado um outro: um técnico de som do Pink Floyd, ao ser perguntado sobre qual guitarra a ser usada num evento, teria respondido: “Qualquer cor que você quiser, são todas azuis”. Talvez a tirada irônica do técnico fosse uma referência ao blues – e na origem do nome deste gênero musical afro-americano baseado nas chamadas ‘blue notes’ (notas azuis), que sugerem um estado de espírito melancólico, ou, depressivo...

Os integrantes do Pink Floyd, acertadamente, raramente opinam ou dão atalhos a respeito das suas canções. Deixam isto para o público e para a crítica. Pois é isto que dá graça a qualquer manifestação artística. Mas numa das raras ‘deixas’ a respeito das canções do grupo, Roger Waters chegou a fazer um comentário a respeito do título ‘Any Color You Like’. E teria dito que há uma tendência de a maioria das pessoas, quando postas num leque de cores a serem escolhidas, optarem pelo azul. Neste raciocínio, o título toma uma forma irônica: na verdade, não há escolha – já que a pessoa está predestinada a seguir com o azul, ou seja, a melancolia, a depressão... A loucura, enfim. Desta forma, fica fácil compreendermos o porquê de ‘Any Color You Like’ ser sucedida por ‘Brain Damage’.

Veja que, ao longo do que já foi analisado nas canções, não é a primeira vez que esta falsa liberdade de escolha aparece. Em Breathe, vimos que, na primeira estrofe, a idéia libertária expressa em ‘Look around and choose your own ground’ (“Olhe em sua volta e escolha seu próprio chão”) se contrapõe ao servilismo presente na segunda estrofe: ‘Don't sit down it's time to dig another one’ (“Não descanse é hora de cavar outra”). Da mesma forma, em ‘Us and Them’, vimos que foi inevitável que o jovem, ante a batalha de palavras entre o pacifista e o homem com arma na mão, acabasse sendo atraído por este último. Em suma, fica patente ao longo do álbum que, a despeito da aparente liberdade que o mundo nos lega, o que acaba prevalecendo é o destino pré-determinado pela ditadura imposta pelo establishment.

No mais, a compreensão do título pode ser buscada na própria capa do álbum. Antes, porém, é conveniente fazer uma breve explicação sobre a imagem publicitária. Quem trabalha com propaganda, sabe que toda e qualquer imagem deve trazer uma “mensagem” ascendente da esquerda para a direita. É neste sentido que os ocidentais lêem; e é neste que os cinegrafistas devem procurar “passear” sua câmera. Mais: tal idéia é buscada também nos gráficos que demonstram, no sentido mais amplo, a evolução de uma empresa: linhas que tendem a “subir” da esquerda para a direita. Assim, as logomarcas ou quaisquer outras figuras que façam referência a determinado produto, tendem a trazer a idéia desta “curva ascendente” – e nunca descendente, o que sugeriria decadência.

Uma vez compreendida tal informação, se você analisar a composição plástica da imagem da capa do álbum, perceberá que ela vai na contramão dessa idéia... Assim, o prisma serve não apenas como um “divisor” entre o feixe monocromático e o espectro de cores, mas também como um divisor de estado de espírito: o primeiro (monocromático) segue na forma ascendente ao passo que o segundo (colorido) sofre uma involução num processo descendente. Ou seja: qualquer que seja a cor que você escolher, de qualquer jeito a trajetória será ‘down’.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Us and Them

US AND THEM
(Composição: Waters, Wright)

Us, and them
And after all we're only ordinary men
Me, and you
God only knows it's not what we would choose to do
Forward he cried from the rear
And the front rank died
And the Generals sat, and the lines on the map
Moved from side to side
Black and blue
And who knows which is which and who is who
Up and Down
And in the end it's only round and round and round
Haven't you heard it's a battle of words
The poster bearer cried
Listen son, said the man with the gun
There's room for you inside


[I mean, they’re not gonna kill ya, so if you give ’em a quick short, sharp, shock, they won’t do it again. Dig it? I mean he got off lightly, ’cos I would’ve given him a thrashing, I only hit him once. It was only a difference of opinion, but really...I mean good manners don’t cost nothing do they, eh?]

Down and Out
It can't be helped but there's a lot of it about
With, without
And who'll deny it's what the fighting's all about
Out of the way, it's a busy day
And I've got things on my mind
For want of the price of tea and a slice
The old man died


Tradução

NÓS E ELES

Nós, e eles
E apesar de tudo nós somos pessoas comuns
Eu, e você
Só deus sabe que nós não tínhamos outra escolha
Lá de trás ele gritou para avançar
E o pelotão de frente foi dizimado
E o General sentou, e as linhas do mapa
Se embaralharam
Preto e azul
E quem sabe qual é qual e quem é quem
Altos e baixos
E no fim das contas isto vira um ciclo sem fim
Você não ouviu isto é uma batalha de palavras
O homem do cartaz berrou
Escuta filho, disse o homem com a arma
Há um quarto pra você lá dentro


[Acho que eles não vão te matar, então se você der neles uma estocada rápida, curta, limpa, eles não vão fazer isso de novo. Sacou? Quer dizer, ele caiu fora porque eu poderia ter lhe dado uma porrada, mas eu só dei uma de leve nele. Era apenas uma diferença de opinião, mas realmente... Acho que boas maneiras não custam nada, né?]

Morto e destruído
Não há como evitar mas há muito a respeito disso
Com e sem
E quem vai negar que é esta a razão de toda a luta
Sai do meu caminho, estou num dia cheio
E estou de cabeça cheia
Por não querer saber do preço do chá e da torrada
O homem velho morreu


Análise
A morte do soldado Eric Flecher Waters na Segunda Guerra Mundial, em fevereiro de 1944, ocorreu cinco meses depois do nascimento do seu filho Roger. Não se sabe se foi este o fator determinante para que a fama de um dos maiores ídolos do pop rock mundial se estendesse também para o seu refinado senso crítico em relação aos descaminhos do mundo – principalmente a guerra. Não é à toa, pois, que ‘Us and Them’ pode ser considerada, sem favor nenhum aos grandes poetas clássicos, uma das mais belas – e realistas – construções poéticas sobre a guerra. Nesta canção, temos mais claramente o toque autobiográfico de Roger Waters – toque este que ressurgiria anos depois em dois outros álbuns: ‘The Wall’ (1979) e ‘The Final Cut’ (1983).

Antes de integrar o álbum ‘The Dark Side of Moon’, ‘Us and Then’ foi batizada preliminarmente de ‘The Violent Sequence’ (“A Seqüência Violenta”) para servir como parte da trilha sonora do filme Zabriskie Point (1970), de Michelangelo Antonioni. A mudança do título foi muito feliz, uma vez que permitiu interpenetrar-se à letra um teor lírico. E principalmente isto: com a mudança, o título transcendeu ao caráter estritamente bélico para nos falar das ‘diferenças’ no seu sentido mais amplo: sócio-econômicas, étnicas, raciais... Iniciemos, pois, a análise...

Como um gancho ao título, o início da letra parece nos remeter a uma “reflexão” de um soldado numa batalha em que o front de um dos lados foi dizimado. E o interessante é que a letra não nos explicita de que lado estava o soldado, ou seja, se do lado perdedor ou vencedor da batalha. Afinal, a idéia é exatamente esta: expressar que, a despeito dos lados que brigam, toda a batalha é protagonizada por inúmeros soldados (pessoas comuns); a ralé que forma a base de uma complexa pirâmide hierárquica em cujo topo está o escol, seja este civil ou militar. E na batalha, não há outra escolha senão obedecer às ordens “vindas lá de trás”: “Forward he cried from the rear”. Aqui, fica clara a distinção entre os comandados da linha de frente e o comandante que, na segura retaguarda, mandou os solados avançarem (para a morte). E na posição ainda mais alta da pirâmide, está sentado o general – que, incólume em seu gabinete ante o mapa, manipula seus comandados em traçados estratégicos que, no fim, transformam-se em linhas embaralhadas que só ele entende. Assim, aos olhos dos comandantes, o real horror da guerra (com mortos e feridos) transforma-se em simples cores (preto e azul) no estratagema esboçado num pedaço de papel. A guerra; as vitórias e derrotas; os impérios, no fim das contas, vira um ciclo sem fim, ou seja, as guerras nunca se extinguirão até por conta de algo só explicável pelo fato de o homem, como diz Saramago, ser o único animal capaz de matar não pela sobrevivência – mas pela pura crueldade fomentada pela ganância.

A letra logo em seguida traz um verso que serve de contraponto: “E no fim das contas isto vira um ciclo sem fim”. Veja que este verso divide dois cenários que sugerem o “ciclo sem fim”: o primeiro, que foi visto acima – ou seja, o resultado trágico de uma batalha em que um front foi dizimado (FIM). E o segundo: uma cena urbana que sugere a gestação de uma guerra (INÌCIO). Para entender tal cena urbana, é necessário explicar algo incomum no Brasil e muito comum nos EUA ou Reino Unido. No Brasil (porque o serviço militar é obrigatório), o exército não precisa fazer a “propaganda de campo”, coisa muito corriqueira no Reino Unido e Estados Unidos (onde o serviço militar, há tempos, é voluntário). A “propaganda de campo” é para convencer um jovem entrar no exército e consiste no seguinte: o exército manda para as ruas belos módulos móveis (normalmente trailers) com pessoas muito bem vestidas em pomposas fardas para fazer uma abordagem aos jovens (normalmente pobres e/ ou imigrantes), tentando convencê-los das grandes vantagens de servir ao exército.

Para a compreensão da letra, torna-se conveniente construir a cena urbana imaginada por Waters usando-se três personagens: o primeiro, é um manifestante pacifista portando um cartaz (sugestivamente escrito “paz”); o segundo é um desses aliciadores enviados pelo exército – na letra simbolicamente representado pelo homem portando uma arma; e o terceiro é um jovem rapaz, muito provavelmente pobre. Mais notadamente a partir da Guerra do Vietnã e o advento Woodstock, era muito comum os manifestantes saírem com a palavra “paz” escrita em cartazes e bradando palavras de ordem contra a guerra. E a letra parece mostrar um jovem que, desavisado, passa por uma manifestação dessas e logo em seguida é abordado pelo aliciador para entrar para o exército. Nasce daí a batalha de palavras: “guerra x paz”. Pois o manifestante alerta o jovem para não cair nessa enquanto o aliciador tenta convencê-lo de forma fraternal: “escuta, filho, há um quarto para você lá dentro”, ou seja, com uma mão o aliciador aponta para o trailer dizendo que ali há um quarto, ou, abrigo para o jovem (o que sugere aconchego) – mas com outra mão segura uma arma (o que sugere violência). Logo após este verso, segue-se a “voz de fundo” que assim começa o seu relato: “Acho que eles não vão te matar (...)”. Não é por acaso que Roger Waters (e os produtores) optaram por mixar tal “voz de fundo”. Conforme já foi explicado anteriormente, tais vozes é que dão o tom do “Lado Escuro da Lua” do álbum. Neste caso específico, o "texto" é de Roger the Hat – uma espécie de supervisor operacional do Pink Floyd. Pois ele, que era tido como um bonachão, foi sorteado com a seguinte pergunta: “qual foi a última vez que você cometeu uma violência”. Evidentemente que o referido trecho, descontextualizado do relato completo, fica sem sentido algum. Também a título de curiosidade, o trecho extraído de Roger the Hat foi exatamente a parte final da sua fala, que relata o seguinte caso: ele teria emprestado sua caminhonete para um sujeito que deu carona para algumas pessoas; depois o sujeito, já bêbado, começou a dirigir alucinadamente, quase causando uma tragédia. Após uma discussão com o incauto, Roger the Hat deu-lhe uma “porrada de leve”. Enfim, esta revelação, ou seja, a confissão (do lado violento) é posta justamente quando o aliciador acaba por convencer o rapaz a entrar para o exército.

O refrão seguinte começa curto e grosso; e aparentemente nos mostra qual foi a opção do rapaz (que se deixou seduzir pelo aliciador) – e qual o destino que estaria traçado para ele: “down and out”. Esta expressão, que já fora usada por George Orwell (‘Down and Out in Paris and London’) para se referir a alguém “na pior, ou, no fundo do poço”, também é muito usada no boxe para um lutador nocauteado. Mas no contexto bélico de Waters, seria algo como “morto e destruído”. E a letra emenda: “não há como evitar, mas há muito a respeito disso”. Esta frase (em que ‘guerra’ e ‘morte’ entram como termos elípticos) começa com um conformismo heideggeriano e acaba com uma ressalva platônica. Ou seja: embora a atração exercida pela guerra (e conseqüentemente a morte) seja algo inevitável para o jovem, não é por falta de aviso e conscientização que eles tomam tal decisão.

Eis que, finalmente, chegamos nas duas poderosas palavras-chave que resumem tudo – e que, inclusive, explicam o porquê de ‘Us and Them’ estar bem situado, no contexto do álbum, logo após a canção ‘Money’: ‘With and without’ (“Com e sem”).
O próprio letrista nos ajuda para explicar a frase: “E quem vai negar que essa é a razão de toda a luta?”. Sim, claro: se pararmos para pensar um pouco, chegaremos à conclusão de que todos os conflitos (bélicos, políticos, religiosos, ideológicos, étnicos, sociais etc.) são motivados essencialmente pela ganância do bicho-homem e sua eterna obsessão pelo “ter” – em detrimento do outro (“não ter”). Não vem ao caso, aqui, entrar em teses sócio-econômicas acerca do fato de a guerra ser algo essencial para o funcionamento da gigantesca “máquina capitalista” – já que às custas do bilionário orçamento bélico das grandes potências locupletam-se todos os setores econômicos, principalmente o setor secundário. Neste raciocínio, a ‘instituição guerra’ nos tempos modernos não é, como muitos imaginam, fomentada apenas pelo fator da conquista, mas sim como algo essencial para fazer girar a fortuna dos que sobrevivem às custas das tragédias humanas. Assim, por exemplo, para que o Congresso norte-americano libere bilhões de dólares para o orçamento militar daquele país, é necessário criar um clima instável entre as nações que justifique o investimento cada vez mais alto em tecnologia. E principalmente isto: é necessário que as bombas explodam.

Nos quatro últimos versos, voltamos ao cenário urbano – e ao desfecho que nos revela a opção tomada pelo jovem. Seduzido pelo aliciador, o jovem, agora, parece impacientar-se com os apelos do “homem que portava o cartaz”. A impaciência do jovem (em relação ao pacifista) parece refletir a reação de muitas pessoas quando cruzam na rua mesmo com um pedinte: “sai da minha frente que estou com pressa e sem saco”.

Enfim, os versos que encerram com chave de ouro a bela composição: ‘For want of the price of tea and a slice / The old man died’. A tradução poderia ser “Por não querer saber do preço do chá e da torrada / O homem velho morreu".
Para um brasileiro, ou melhor, para um não britânico, estas duas frases, aparentemente, não têm muito sentido. Mas saiba que são belíssimas sacadas de Waters. Para tentar compreender a idéia, iniciemos por evocar o sentido de um conhecido dito: “O seguro morreu de velho”. Em seguida, se substituíssemos o tea (chá) e o slice (fatia de torrada) por “café com pão” a coisa melhoraria, pois são duas “instituições” brasileiras que representam uma refeição mínima para sobrevivência. Na Inglaterra, tal instituição é o chá com torrada.
Mas o que isto tem a ver com o sentido da letra? Bom, as duas frases fecham metaforicamente o sentido dos versos anteriores e diz respeito ao egoísmo daqueles que, por só olharem o seu próprio umbigo, pouco se interessam no engajamento contra as mazelas do mundo. Por isto, vivem bem e sem estresse. Quer dizer: se uma pessoa não é capaz de questionar; revoltar-se; meter a cara num problema que diz respeito a ela própria (no caso, o aumento do preço da sua alimentação básica que, aliás, privaria os pobres de comer), então há grande chance de se ter uma vida longa, ou seja, morrer de velhice.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Money

MONEY
Composição: Waters

Money, get away
Get a good job with more pay and you're o.k.
Money it's a gas
Grab that cash with both hands and make a stash
New car, caviar, four star daydream
Think I'll buy me a football team

Money get back
I'm all right jack keep your hands off of my stack
Money it's a hit
But don't give me that do goody good bullshit
I'm in the hi-fidelity first class travelling set
And I think I need a Lear jet

Money it's a crime
Share it fairly but don't take a slice of my pie
Money so they say
Is the root of all evil today
But if you ask for a rise it's no surprise that they're
giving none away

Tradução


Dinheiro

Dinheiro, liberte-se
Arranje um bom emprego que pague mais e você fica legal
Dinheiro, é combustível
Agarre a grana com as duas mãos e esconda-a
Carro zero, caviar, luxos de sonhar acordado
Acho que vou comprar um time de futebol


Dinheiro, afaste-se
Estou limpo, peão, mantenha suas mãos longe da minha grana
Dinheiro, é sucesso
Mas não me venha com essa babaquice de dinheirinho suado
Eu me tornei um contumaz viajante de primeira classe
E acho que preciso logo de um jatinho

Dinheiro, é um crime
Reparta-o com justiça, mas não se meta com a minha fatia
Dinheiro, como dizem por aí
É a raiz de todos os males hoje
Mas se você pede um aumento é claro que eles não vão dar


Análise

Com a canção ‘Money’, entramos na fase colorida do álbum. E o título não poderia ser mais emblemático para a canção que abre o “lado B” não só do álbum, mas do “lado B” desconhecido dentro de cada um de nós: preconceituoso, violento, louco... Todos somos um pouquinho disso tudo? Todos possuímos um “lado escuro” dentro de nós mesmos? Bom, tratemos primeiramente de ‘Money’...

Como não poderia deixar de ser, esta também é uma letra muito bem ‘sacada’ e estruturada. Para perceber isto, é conveniente, antes, uma breve explicação sobre a estrutura poética.

A letra está dividida em três estrofes. E cada estrofe é iniciada com uma frase de efeito muito comum quando as pessoas querem maldizer o dinheiro, ou seja, quando alguém quer recomendar o afastamento daquela entidade “demonizada”: “Dinheiro, liberte-se”; “Dinheiro, afaste-se”; “Dinheiro, é crime”. Mas quando você passa para o verso seguinte àquele que abre cada estrofe, percebe que a idéia é totalmente contrária. Ou seja: cada frase de efeito é usada, na verdade, para demonstrar o apego ao dinheiro. E é assim que Waters, com ironia e competência, retrata aquela contradição (para não dizer hipocrisia) das muitas pessoas que, da boca pra fora, dizem “odiar” o dinheiro, quando, no fundo, veneram. Explicando melhor...

A letra começa assim: “dinheiro, liberte-se”. Quem lê isto, imagina logo de cara que a letra está sugerindo que devemos nos libertar, ou, fugir do dinheiro. Mas eis que vem o segundo verso emendando: “arranje um bom emprego com o maior salário que você fica legal”. Ou seja: a idéia do “liberte-se” transforma-se em “o dinheiro é que nos liberta”. O verso seguinte releva o dinheiro como alavanca universal: “Dinheiro, é combustível”... Assim sendo, como o mundo é fomentado pelo dinheiro, devemos agarrá-lo “com ambas as mãos” – pouco importando como... A chave para entendermos a dimensão da ganância e egoísmo – e as possíveis ilicitudes dos ganhos – está na recomendação seguinte: “esconda o dinheiro”. Assim, será possível todos os ícones da luxúria: carro novo, caviar, casas cinematográficas, cruzeiros dos sonhos etc. Por fim, vem a idéia da compra de um time de futebol. Neste desfecho da estrofe entramos numa lacuna interpretativa. Não se sabe ao certo qual o propósito de Waters ao fazer a referência ao futebol, mas poderíamos especular algumas idéias que, por fim, convergem para a própria luxúria. Em primeiro lugar, já naquela época (início dos anos setenta) o esporte inventado pelos ingleses já se configurava como uma paixão mundial ao mesmo tempo dispendiosa e (aparentemente) supérflua – já que o futebol, direta ou indiretamente, sempre movimentou fortunas. Não bastasse isso, o futebol é reconhecidamente uma das maiores fontes de lavagem de dinheiro. Se é verdade que tal realidade é algo bem antigo para o direito tributário, também é verdade que a lavagem de dinheiro no futebol é algo relativamente novo para a mídia. Seria, pois, forçar demais a barra dizer que Waters tivesse fazendo uma referência também à lavagem de dinheiro... Mas nunca é demais lembrar: estamos tratando de Pink Floyd...

Na segunda estrofe, vem outro recado: “Dinheiro, afaste-se”. Tal qual na primeira estrofe, quando começamos a imaginar que a letra sugere que “devemos nos afastar do dinheiro”, o verso seguinte nos dá uma idéia totalmente diferente: “afaste-se da ‘minha’ grana, seu peão”. Neste caso, a idéia lembra-nos a teoria marxista da mais-valia; da exploração da força de trabalho que suscita a lógica que, para a existência de um milionário, é necessária a existência do miserável. Assim, para a possibilidade do carro zero, caviar e os luxos citados na primeira estrofe é necessário que se tenha por perto um ‘jack’ (trabalhador de baixa renda; um ‘peão’ no nosso linguajar) com seu “trabalho honesto, sofrido e mal remunerado” – e desde que este ‘jack’ se mantenha longe da grana.
Os quatro últimos versos da estrofe mostram que o dinheiro, enfim, é sinônimo de sucesso exatamente porque é segregante. Assim, o sucesso, certamente, nunca chegará a quem “rala” para ganhar uns poucos trocados. O sucesso, isto sim, só chega para aqueles que experimentam o conforto das áreas VIP; que viajam de primeira classe. Uma vez que é imprescindível aos gananciosos marcar cada vez mais sua posição social, ou, sua superioridade (financeira), por que então não comprar logo um avião particular?

Na terceira estrofe, temos: “Dinheiro, é um crime”. E repete-se a lógica contraditória das outras duas estrofes, só que desta vez imbuído por um cinismo: quando passamos para o verso seguinte, constatamos que o crime, na verdade, é não repartir o dinheiro com justiça; e uma vez repartido, crime também é meter a mão na grana alheia. Este desfecho reproduz claramente o cinismo do patronato: “é preciso repartir o bolo (justiça social), mas desde que não metam a mão no meu naco (fortuna)”. Ou seja: nesta lógica, nunca haverá justiça social. E os dois últimos versos dizem exatamente isto: “eles” (o patronato) dizem que o dinheiro é a fonte de toda a desgraça do mundo; mas se você for pedir para “eles” um aumento, é claro que eles não vão te dar. Tal lógica é bem sintetizada num utópico dito popular: “se dinheiro não traz felicidade, dê-me o seu e seja feliz”.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

The Great Gig in the Sky

The Great Gig in the Sky ("O Grande Espetáculo no Céu")
(Wright)

[And I am not frightened of dying, any time will do I don’t mind. Why should I be frightened of dying? There’s no reason for it, you’ve gotta go sometime. I never said I was frightened of dying.]

Tradução
[E eu não tenho medo de morrer, qualquer hora pode acontecer, sei lá. Por que eu deveria ter medo de morrer? Não há razão para isso, um dia você vai. Eu nunca disse que eu tinha medo de morrer.]

Análise

O som ‘The Great Gig in the Sky’ é instrumental e diz respeito à morte e à religiosidade, ou, misticismo. Assim como nos outros instrumentais ‘Speak to Me’ e ‘On the Run’, aqui também ouvimos vozes ao fundo (vide transcrição acima) – e que faz parte, conforme já foi explicado, do apanhado de respostas do questionário que Roger Waters formulou. E, claro: aqui aparece o extraordinário vocal de Clare Torry. E tal vocal não foi inserido na canção à toa. Sobre isto falarei mais adiante. Antes, julgo interessante contar uma curiosidade sobre Clare Torry. A cantora inglesa foi convidada pelos produtores do Estúdio Abey Road para uma pequena participação no álbum ‘The Dark Side of Moon’. No princípio, Roger Waters reprovou a participação de Clare Torry. Mas foi voto vencido. Os produtores então puseram a cantora diante do microfone e teriam dito a ela: “Pense na morte; pense no horror... E cante!”. Clare não entendeu bem o que eles queriam, mas cantou o que ela sabia. Gravou rapidamente e foi embora arrasada e se desculpando com todo mundo. Porque achou que tinha ficado horrível aquilo que, até então, era apenas um berreiro descontextualizado; sem acompanhamento algum. Depois, os produtores usaram alguns efeitos disponíveis na época e introduziram o piano de Wright. O resultado, que todos conhecemos, acabou maravilhando Roger Waters.

Pois eu falava do sentido do vocal “desesperador” de Clare Torry. Bom, se você leu acima a parte oral do instrumental (“E eu não tenho morrer...”), vai perceber ali uma visão otimista (por assim dizer) e corajosa a respeito da morte. E tais palavras parecem reproduzir exatamente o que muitas pessoas dizem por aí da “boca pra fora”, ou seja, aquela velha máxima: “medo da morte por que? Um dia todo mundo vai mesmo...”. E no som, logo depois de você ouvir essas palavras, entra o vocal de Clare Torry expressando o horror e passando-nos um sentimento desesperador. E a idéia do álbum é exatamente esta: contrapor o que nós dizemos com aquilo que nós efetivamente sentimos.

Uma outra curiosidade importante: anteriormente intitulado de ‘The Mortality Sequence’ (“A Seqüência da Mortalidade”), resolveram mudar o título para ‘The Great Gig in the Sky’. Na minha opinião, tal mudança teria se dado pelo seguinte fato: o título original (‘The Mortality Sequence’) particularizaria, ou, limitaria a proposição exclusivamente à idéia da morte. Já o título (‘The Great Gig in the Sky’), ao contrário, gera um conceito muito mais amplo – e enigmático, pois nos provoca a pergunta: a que se refere “o espetáculo no céu?”. Assim, podemos pensar em tal “espetáculo” como a mania que o ser humano tem de atribuir ao céu a resposta para todas aquelas questões, ou, crenças nas quais nunca obtivemos uma resposta satisfatória: deus, religiosidade, misticismo, extraterrestres, universo... E, claro, a morte.

E assim, ‘The Great Gig in the Sky’ fecha a primeira fase do álbum. Nos antigos LPs (Long Plays, ou, discos de vinil), este som encerrava o que chamávamos de “lado A”. E “virar o disco”, no caso do ‘The Dark Side of Moon’, não trazia apenas a conotação de mudança de faixa, ou, música. Havia também, no meu entender, uma simbologia que estava claramente estampada na capa do álbum: a mudança do universo monocromático para o universo colorido.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Breathe Reprise

Breathe Reprise
Composição: Waters, Gilmour, Wright
-
Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It's good to warm my bones beside the fire
-
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells.

Tradução

Respire Reprise

Lar, lar novamente
Eu gosto de estar aqui quando posso
E quando volto para casa com frio e cansado
É bom aquecer os meus ossos junto à lareira

Lá ao longe, do outro lado do campo
A badalada do sino metálico
Invoca os fiéis a se ajoelharem
Para ouvirem baixinho as mágicas pregações

Análise

Não é à toa que esta canção foi estrategicamente disposta ao final da canção ‘Time’ e se chama ‘Breathe Reprise’. Pois ela nos remete exatamente à idéia da implacabilidade do tempo (como “diz” ‘Time’) e se incorpora numa espécie de continuação contraponteada de ‘Breathe’. Explicando...

Após captarmos a mensagem de ‘Time’, imaginamos que a pessoa já está ‘velha’ (espiritualmente falando) e entregue ao comodismo que já foi explicado na mesma (Time). E a “volta ao lar” sob qualquer propósito, ou seja, “quando eu posso” contrapõe-se a ‘Breathe’, quando o narrador dizia “Vá, mas não me deixe / Olhe em sua volta escolha e escolha seu próprio chão (...)”. E conclui: “E sorrisos você dará e lágrimas você chorará / E tudo que você tocar e tudo que você enxergar / É tudo que a sua vida um dia será”.

Em contraposição a isso, na Reprise de Breathe temos a imagem da pessoa voltando para casa com frio e cansada. Isto nos dá uma idéia, de certa forma, de uma derrota; da falta de um aconchego humano, ou seja, a carência afetiva (metaforicamente representado pelo ‘frio’) e a dureza da labuta (representado pelo ‘cansaço’) que o narrador bem avisou ao final de ‘Breathe’: “Somente se você entregar-se à maré / E equilibrar-se na onda mais alta / Você disputa a corrida para a sepultura precoce”.
-
E a imagem da pessoa se aquecendo defronte a lareira é o clássico cenário do suposto conforto que sugere a impassibilidade, ou, comodismo. A própria frase “aquecer os ossos” já é a senha que nos remete à idéia da morte – já que os ossos são os únicos órgãos que remanescem à passagem do tempo após a morte. E aqui estamos falando da metáfora da mesma, ou seja, da “morte espiritual” que também foi comentada anteriormente na análise de ‘Breathe’. E os últimos versos parecem reforçar isto.... De que forma?

Os últimos versos trazem uma referência à religiosidade. E os letristas, sabiamente, sobrepuseram duas imagens: o nosso personagem no comodismo defronte a lareira enquanto, do outro lado do campo, os sinos chamam as pessoas para as “pregações mágicas”. A idéia dessas “badaladas do sino” parece uma referência ao poema ‘For whom the Bell Tolls’ (“Por Quem os Sinos Dobram”), do poeta inglês John Donne (não confundir com a obra homônima de Hemingway). E o final do poema nos clareia neste aspecto:
-
“Any man's death diminishes me, because I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee...”
-
Traduzindo:
"A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

Ante esta “imagem” de Donne (brilhantemente captada por Waters), podemos deduzir que, a despeito de virem do outro lado do campo, os sinos tocam e as pessoas oram pela morte do próprio personagem diante da lareira.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Time

Time
Composição: Gilmour, Mason, Waters, Wright

Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun

And you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time has gone, the song is over, thought I'd something more to say


Tradução:

Tempo

Contando os momentos que maquiam um dia enfadonho
Você desperdiça e perde tempo à toa; nem aí pra nada
Perambulando no seu mundinho na sua cidade natal
Esperando alguém ou algo pra te mostrar o caminho

Cansado de ficar de papo pro ar em casa vendo a chuva cair
Você é jovem e a vida é longa e hoje há tempo pra matar
E assim um dia você descobre que dez anos voaram
Ninguém te falou quando correr, você perdeu o tiro de partida

E você corre e corre para alcançar o sol, mas ele está se pondo
E correndo em volta da Terra pra surgir novamente atrás de você
O sol é relativamente o mesmo, mas você está mais velho
Sem fôlego e cada dia mais perto da morte

Cada ano vai ficando mais curto, parece que nunca há tempo pra nada
Planos que deram em nada ou mesmo meia página de linhas rabiscadas
Suportando um silencioso desespero é bem o jeito inglês
O tempo acabou, a canção terminou, acho que tinha algo mais a dizer


Análise

A canção ‘Time’ começa com um oportuno despertador que simboliza a própria mensagem da letra. É como se os letristas quisessem dizer: “hei, acorda pra vida!”.

Antes de começar a análise, vale uma observação a respeito da tradução. Em primeiro lugar, a expressão “ticking away” (um phrasal verb relativo à passagem e/ou marcação de tempo) está condicionada a “moments” e toma, assim, um sentido cujo melhor correlato para o português seria “contando os momentos” – no sentido de “passando o tempo em momentos”. Uma outra observação é relativo ao complicadíssimo “make up”, que pode tomar o sentido de ‘compor’, ‘compensar’, ‘fantasiar’, ‘iludir’, ‘disfarçar’, ‘maquiar’... Veja que, se é verdade que qualquer um desses verbos se encaixaria no verso, também é verdade que cada um muda consideravelmente o sentido do mesmo. Pessoalmente, considero que o termo metafórico “maquiar” seria mais apropriado para o contexto. Bom, para explicar isto, melhor é partir direto para a análise...

A letra fala de uma pessoa jovem que, “de bobeira”; fechado no seu mundinho, vai vivendo o seu dia-a-dia “chutando lata”, como se diz por aí. Embora a pessoa não esteja satisfeita, ela vai levando sua vidinha ociosa; vai se relacionando com pessoas com as quais, no fundo, nem gostaria de estar... Assim, os momentos (bons e ruins) que ela vai passando nessa vidinha medíocre só servem para maquiar o que, no fundo, é pura monotonia.
O verso “Esperando alguém ou algo pra te mostrar o caminho” mostra aquele comodismo da pessoa que, em vez de correr atrás, prefere acreditar no milagre de que, um dia, vai aparecer aquele alguém que vai lhe tirar do fundo do poço; que vai dar aquele empurrão encorajador na direção do sucesso.

A segunda estrofe começa com o “Tired of lying in the sunshine”, que tem sido traduzido para algo como “Cansado de ficar estirado ao sol”. Tudo bem. Mas devemos entender “lying in the sunshine” como uma expressão idiomática que conhecemos como “ficar de papo pro ar”. Até porque, se analisarmos o verso, ficaria estranho a tradução literal “Cansado de ficar estirado ao sol ficando em casa pra ver a chuva cair”. Enfim, a estrofe inicia como a referência à pessoa que já está de saco cheio da vidinha “mais ou menos”. Porém, no fundo ela se conforma porque raciocina da seguinte forma: “eu sou jovem e a vida é longa; portanto, eu posso coçar o saco hoje que amanhã dá pra compensar”. E no dia seguinte faz a mesma coisa; e depois idem... E eis que, um dia, ela vê que dez anos passaram rapidinho; e não apareceu ninguém para dar um toque... E quando a pessoa resolve acordar, vê que ficou pra trás – “You missed the starting gun!”. Interessante notar que aqui, assim como na canção ‘Breathe’, é recorrente a analogia da vida com a disputa de uma corrida. Pois lá (em ‘Breathe’) a letra traz a menção irônica: “Mas somente se você entregar-se à maré / Você disputa a corrida para a sepultura precoce”.

A terceira estrofe começa também como uma recorrência ao que foi visto em ‘Breathe’: a referência ao sol como algo positivo. A pessoa corre para tentar alcançar o sol (ou, como dizem, “conseguir o seu lugar ao sol”), mas ele já está se pondo. E o sol vai correr dando uma volta inteira na terra e ressurgir atrás da pessoa (então já retardatária)... Mas quando o sol surgir novamente, a pessoa já está velha e sem fôlego para alcança-lo... E o processo vai se repetindo até o dia em que a pessoa se vê perto da morte e com o dilema: do que me valeu a dádiva da vida se eu não tive competência para preenchê-la de maneira sublime?

Finalmente, a última estrofe fecha de maneira melancólica os ‘toques’ da letra – mas desta vez do ângulo da pessoa que, já velha, olha para trás e parece fazer uma reflexão do que foi sua vida. O primeiro verso “Every year is getting shorter (…)” exprime exatamente aquela sensação que todos nós temos: cada ano de nossas vidas parece que passa mais rápido que o anterior; e concomitante a isto, aos poucos se esgota o tempo para realizar algo. Isto fica mais nítido se uma pessoa mais velha fizer a comparação dos tempos de juventude, quando tinha tempo e energia de sobra para fazer tudo: estudar, correr, viajar, jogar, namorar, cinema, churrasco, balada...
E ainda olhando para trás, lembramos daqueles planos que nunca saíram do papel exatamente pelos imprevistos ou pela própria inércia; pelo comodismo. A imagem da “meia página de linhas rabiscadas” remete-nos exatamente a isto: um projeto de vida interrompido no meio do caminho – que é emendado pela famosa frase: “Suportando um silencioso desespero é bem o jeito inglês”. Esta é uma crítica de Roger Waters aos seus compatriotas, reconhecendo nestes o conservadorismo até mesmo da sua própria infelicidade; a inércia que impede uma atitude para se erguer e mudar sua vida.
E o último verso, embebido por fina ironia, é um fecho espetacular que vem como um resumo, ou, confirmação da mensagem principal da letra. Quer dizer: o tempo, implacável que é, não perdoou inclusive os letristas. Pois estes falaram, falaram... E eis que o tempo se esgotou, a canção terminou e eles não puderam dizer tudo aquilo que pretendiam. Ou seja: fica-nos a impressão de que a letra ainda tinha algo de importante para dizer e que acabou ficando perdido pelo esgotar do tempo – tal qual uma vida que chega ao fim com as diversas oportunidades destruídas pela implacabilidade do tempo.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

On the Run

On the Run ("Em Fuga")
(Gilmour, Waters)

Embora seja essencialmente instrumental, “On The Run” merece uma análise bem ao nível do Pink Floyd. Pois há neste som toda uma simbologia que é a marca registrada do ‘The Dark Side of Moon’ – e que nos traz claramente a continuidade do enredo que já foi explicado anteriormente...

Preliminarmente batizada pela banda de ‘The Travel Sequence’ – ou, “A Seqüência da Viagem” (sugestivo, não?) –, você percebe que o som se inicia com a voz de uma “locutora de aeroporto” e depois segue com o ruído de passos e diversos efeitos de aeronaves e explosões. O que isto significa? Vamos à análise...

Como num contraponto à canção ‘Breathe’, o som ‘On The Run’ começa num ritmo frenético... Você começa a ouvir a típica voz de uma locutora de aeroporto como que anunciando uma partida e em seguida vêm os passos de alguém que, esbaforido, corre supostamente para não perder o vôo.

Na seqüência, ouve-se uma voz masculina (talvez o piloto da aeronave) dizendo “Live for today, gone tomorrow, that’s me” – que seria traduzível para “Viver o hoje, amanhã já era, este sou eu” – e depois dá uma sádica gargalhada mecanizada. Tal passagem reforça a idéia da entrega aos perigos anteriormente exposta na frase “Equilibrar-se na onda mais alta”, de ‘Breathe’. Na seqüência do som, ouvem-se aeronaves e explosões... Depois advém o silêncio, numa alusão de que tudo se estraçalhou – inclusive levando à morte o piloto (que supostamente pilotava a aeronave de maneira insana e suicida).

O interessante é que, após as explosões, você ouve novamente os passos da pessoa juntamente com a respiração. A interpretação mais sensata para isto é que a pessoa que estava correndo acabou perdendo o seu vôo – uma fatalidade que, no fundo, acabou salvando sua vida por não ter embarcado naquela viagem suicida. Isto vem nos mostrar o quanto é tênue a linha que separa a vida da morte... Pois em muitos casos (muito provavelmente com você mesmo tenha acontecido) um mero acaso evita que nós embarquemos numa “canoa furada” – o que nos leva a questionar: estariam nossas vidas à mercê da sorte?

Assim, o título ‘On the Run’ remete-nos à idéia da nossa eterna fuga da morte. Ou, noutro ângulo: viver é também o exercício de driblar o constante espreitar da morte.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Breathe

Breathe ..............................................................Respire
Composição: Waters, Gilmour, Wright

Breathe, breathe in the ar................................Respire, inspire o ar
Don't be afraid to care...............................Sem receio de se envolver
Leave but don't leave me.................................Vá mas não me deixe
Look around and choose your own ground....Olhe em sua volta e escolha seu próprio chão
For long you live and high you fly......Para que você tenha uma vida longa e voe alto
And smiles you'll give and tears you'll cry......E sorrisos você dará e lágrimas você chorará
And all you touch and all you see..........E tudo que você tocar e tudo que você enxergar
Is all your life will ever be........................É tudo que a sua vida sempre será

Run rabbit run...........................................Corra coelho corra
Dig that hole, forget the sun,...................Cave essa toca, esqueça o sol,
And when at last the work is done....E quando finalmente o trabalho esitver concluído
Don't sit down it's time to dig another one...Não descanse é hora de cavar outra
For long you live and high you fly.......Para que você tenha uma vida longa e voe alto
But only if you ride the tide........................Mas só se você entregar-se à maré
And balanced on the biggest wave...........E equilibrar-se na onda mais alta
You race towards an early grave..........Você disputa a corrida para a sepultura precoce.


Análise

Na internet, encontrei várias traduções, ou, versões diferentes para esta letra. Eu nunca ousaria dizer que estão equivocadas. É uma questão de interpretação da letra. Afinal, a variedade interpretativa é que dá graça à arte.

Assim, alguém pode questionar, por exemplo, por que não traduzi o refrão “For long you live and high you fly” para “Por mais que você viva (...)”, que inunda a internet.
Bom, a explicação está na parte mais repulsiva da gramática. Se iniciarmos uma frase com uma conjunção concessiva “por mais que”, então teremos que admitir que estamos diante de uma oração subordinada adverbial concessiva. Neste caso, cadê a subordinação? Não há. Assim, o lógico é admitir que o refrão, posto estrategicamente ao meio de cada estrofe, finaliza (com ironia até) as idéias contidas nas orações antes dela. Confuso, não? Mas vou tentar melhorar este raciocínio com a interpretação da letra. Daí você vai perceber o quanto ela foi bem construída.

Conforme já foi dito, ‘Breathe’ está dividida em duas estrofes (conforme o site oficial do Pink Floyd). E estas foram cuidadosamente elaboradas num antagonismo: a primeira é um aconselhamento positivo (aparentemente ingênuo e subjetivo) ao passo que a segunda é um aconselhamento negativo (malicioso e realista). Voltarei a este raciocínio mais para diante.

Bom, a canção segue a lógica cronológica do 'The Dark Side of Moon’. Ou seja, como estamos no começo do álbum, supõe-se que faz referência a um jovem que começa a dar seus primeiros passos na vida – e que recebe o conselho de uma pessoa mais velha, ou, mais experiente. O primeiro conselho é singelo, mas poderoso: “respire, inspire o ar”. A respiração é o primeiro ato da vida e é a única faculdade da qual os seres aeróbios não podem preterir. Em seguida, a letra diz para o jovem não ter medo de ousar; de partir.... A frase “Don’t be afraid to care” tem sido traduzida para “sem receio de se preocupar” – o que torna a expressão meio sem sentido. O “to care” traz o sentido do relacionamento; do envolvimento com o outro. Pois muitas pessoas têm medo de se entregar; de se envolver numa relação exatamente pelo medo de, no fim das contas, sobrevierem os possíveis ferimentos; os sofrimentos; as mágoas... Assim, o sentido da frase é um encorajamento para pessoa não temer os relacionamentos humanos. Em seguida, vem a experessão que reforça a idéia deste encorajamento – “vá”! –, com uma ressalva: “mas não me deixe”. Isto parece refletir um desejo muito comum dos pais, que torcem pela independência dos filhos – mas temem que tal independência se transforme em abandono. Depois vem “olhe em sua volta, escolha seu próprio chão”. Assim, o jovem não deve limitar-se em ficar recluso no seu círculo (mundinho). E vem o refrão que finaliza os aconselhamentos, como se o conselheiro dissesse: “tudo isso que acabei de dizer é para que você viva muito e voe alto”.
O conselheiro segue dando os seus toques: “você vai experimentar todas as emoções possíveis (na letra metaforicamente resumidas em "sorrir e chorar"); viverá toda a realidade ("tocar e enxergar"). E isto será o bastante para você traçar a sua vida.

E vem a segunda estrofe... Sem dó nem pena, o conselheiro quebra a suave subjetividade dos primeiros conselhos e ordena sem vírgulas (o que sugere falta de fôlego): “corre coelho corre”. A analogia com o coelho não foi à toa. Pois o coelho é um animal cuja única virtude vital é a ligeireza e a fertilidade. No mais, só se presta aos desmandos alheios: além de ser a “presa universal” do reino animal, é a cobaia preferida nos experimentos científicos e títere preferível dos mágicos por sua conhecida passividade. Mais: o coelho é o animal que, numa ilusão de ótica, muitos “enxergam” nas manchas da lua. Enfim, a ironia da coisa: é um animal que vive relativamente pouco (em média 7 anos) e que não voa – numa clara contradição ao desejo do conselheiro: “para que você tenha uma vida longa e que voe bem alto”.

A letra prossegue: “Cave essa toca, esqueça o sol / E quando finalmente o trabalho estiver terminado / Não descanse é hora de cavar outra”.
Aqui, o escuro (na imagem da toca, ou, buraco) entra como parte negativa e o sol como a parte positiva (prazer). Quer dizer: não importa o que você faça nesta vida, o importante é trabalhar sem pensar nas coisas boas; nos prazeres. Logo em seguida o refrão: “Para que você viva muito e voe bem alto” – e a ressalva: “Mas só se você entregar-se* à maré / E equilibrar-se na onda mais alta / Você disputa a corrida para a sepultura precoce”.
*Obs.: na letra, a expressão “ride the tide” (cavalgar a maré; ir de acordo com a maré) traz implicitamente o sentido de ‘entrega’.

Este é, enfim, um final irônico dos aconselhamentos: a entrega à maré e às altas ondas do mercenarismo desenfreado é também uma entrega à morte prematura. Aqui, a imagem de um surfista entregando-se perigosamente à maré para pegar as ondas mais altas entra não só como simples metáfora para o establishment, mas também para simbolizar a influência negativa da lua (que rege as marés) que, aliás, também parece reger o álbum.
Veja que a morte, aqui, não seria necessariamente a representação física da mesma, mas sim a morte espiritual do indivíduo. Ou seja: uma vida insossa sem importar-se com os fatores existenciais é também uma forma de morrer.

Agora, o mais interessante – e que, até hoje, parece que ninguém sacou: as duas estrofes estão simetricamente interligadas numa espécie de complemento irônico quase que esboçando um antagonismo. É como se os aconselhamentos “suaves” da primeira fossem, no fundo, uma preparação para os aconselhamentos “pesados” e contraditórios do segundo. Assim, juntando as duas estrofes (em cores diferentes para melhor visualisar), teremos:

Respire, inspire o ar (tome fôlego)>
corra coelho corra (sem fôlego)

Sem receio de se envolver (sem medo dos possíveis sofrimentos)>
Cava esse buraco, esquece o sol (sofrimento)

Vá, mas não me deixe >
Quando seu trabalho estiver terminado (você me deixará)

Olhe em sua volta, escolha seu próprio chão >
Não descansa é hora de cavar outro (não há escolha)

Para que você viva muito e voe alto (refrão)

E sorrisos você dará e lágrimas você chorará (experimentará todas as emoções)>
Mas só se você entregar-se à maré (sem emoções)

E tudo que você tocar e tudo que você enxergar >
Equilibrando-se na maior das ondas (na onda, um surfista não pode tocar em nada; e seus olhos ficam à mercê da estrita concentração nas manobras)

É tudo que a sua vida sempre será >
A corrida para a sepultura precoce.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Speak to Me

Speak to Me
(Mason)
I've been mad for fucking years, absolutely years, beenover the edge for yonks, been working me buns off for bands...


I've always been mad, I know I've been mad, like the most of us...very hard to explain why you're mad, even if you're not mad...


Tradução:
Fale para Mim
Eu tive puto da vida naqueles anos fodidos, muitos anos, fui além dos limites por longos anos, ralando pelas bandas...

Eu sempre tive puto, eu sei que andei puto igual a maioria da gente... muito difícil explicar por que você anda puto até mesmo quando você está calmo.



Análise

Embora instrumental, a primeira canção do álbum traz implícita uma "letra". Na verdade, não é considerada uma "letra" propriamente dita, mas parte dos comentários soltos, ou, vozes que você ouve ao longo do álbum como se fosse uma "conversa de fundo". Assim, não tente associar a tal "letra" à canção, já que não fará sentido algum - muito embora as tais vozes sejam consideradas por muitos como o verdadeiro "lado escuro da lua" proposto pelo álbum. Explica-se...

Conforme já foi dito noutro post, o lado escuro da lua é metáfora para o lado escuro de cada ser humano, ou seja, o nosso lado desconhecido, enigmático... Enfim: o lado que ninguém conhece.
Quando na elaboração do álbum, Roger Waters formulou um questionário que distribuiu às pessoas do estúdio em forma de papeletas. E tal questionário tocava em temas afins com o álbum, como loucura, violência, morte etc. Uma das perguntas era, por exemplo: "você tem medo da morte?" Ou: "qual foi o seu último ato violento?". As pessoas do estúdio (técnicos de som, porteiro etc.) gravaram de própria voz as respostas; depois, os produtores pegaram aleatoriamente as tais vozes e foram mixando ao álbum - o que deu um tom enigmático. Por isto dizem que este detalhe (pessoas comuns falando de morte, loucura, violência etc.) é que, no fundo, é o "lado escuro da lua" proposto pelo álbum.

Bom, a primeira canção...

A primeira canção do álbum “começa do começo”, ou seja, uma vida sendo gerada dentro do ventre materno. Primeiro, o silêncio; depois, os batimentos cardíacos (uma batida por segundo) cuja progressão sonora sugere o crescimento do feto. E tal vida parece perceber, de antemão, tudo o que se passará no mundo externo – e que está presente ao longo do álbum: primeiramente os ruídos do relógio (‘Time’); depois as caixas registradoras (‘Money’); as risadas (‘Brain Damage’); as aeronaves ( ‘On The Run’) e finalmente o grito feminino (‘The Great Gig in The Sky’)... Interessante observar que a reprodução deste grito feminino (de Clare Torry) têm duas vias interpretativas: simboliza o grito da mãe em meio à dor parto; e também o choro da criança – então a primeira manifestação do bebê quando chega ao mundo. Daí o título ‘Fale para Mim’.
E finalmente tudo calha na canção ‘Breathe’, quando o bebê tem a sua primeira manifestação vital: respirar. Na versão original, a canção ‘Speak to Me’ era mesclada à ‘Breathe’. Depois, por questões de direitos autorais que não vem ao caso, resolveram dividi-las em duas. Só a título de curiosidade, o título ‘Speak to Me’ foi inspirado numa frase do engenheiro de som, Alan Parson – quando este pediu para Roger Waters falar algo ao microfone para testar o equipamento. Assim, logo que Waters chegou ao estúdio para gravar, Parson teria lhe pedido “speak to me” (“fala pra mim”).

terça-feira, 1 de abril de 2008

Em briga de mulher só a imprensa mete a colher

Onde vai parar a mídia tupiniquim que acha graça numa coisa dessa?

quinta-feira, 27 de março de 2008

Sociopata versus Perua - Ao vivo

Todo mundo sabe que o programa 'Mais Você' é um pé-no-saco e que sua apresentadora, Ana Maria Braga, é insossa.

Daí a Globo pôs um ex-BBB pra ser entrevistado pela perua. Em virtude da minha debilidade, não suporto BBB. Mas dizem que o sujeito é um médico (?) psiquiatra (???) que é sociopata. Claque: rárárárá!

Bom, só vim a conhecer o tal médico (?) neste vídeo. E pelo que vi, o cara só pode ser duas coisas: um simples imbecil ou um gênio da psiquiatria. Por que? Porque conseguiu com que muitos enxergassem que, além de tudo, Ana Maria Braga é ignorante, despreparada e desequilibrada.

Acompanhe comigo, por etapas, o vídeo:

1- Ela já entrou no estúdio disposta a desancar o cara. Sim, quem leva o BBB a sério acaba elegendo mocinhos e vilões;
2- Entre 00:24 e 00:36 ela o chama (sutilmente) de vagabundo. E o cara responde em fair play. Ou não entendeu o recado. Enfim, que diferença isso faz, né...
3- Depois, a apresentadora deixa entender que é totalmente absurda uma afirmação do sujeito, que teria afirmado que "conversar e discutir é a mesma coisa; e que brigar e discutir são coisas diferentes". Se ela, que já foi jornalista (?), se desse ao trabalho de consultar um dicionário, veria que não há absurdo algum na tal afirmação.
4- Aos 02:10 a câmera dá um close no cara, que lança a ela um olhar tipo "essa mocréia tá querendo me pegar pelo pé".
5- Aos 02:48 o clímax: ele, num tom supostamente agressivo e briguento (porém de brincadeira; fazendo uma ironia com o a pecha que a Ana Maria queria lhe imputar) corta e sugere mudar de assunto. Pronto. Daí por diante, a "apresentadora", sem captar o espírito da coisa, leva o gesto como uma ofensa.
E a perua desandou... A partir daí, ela desata a mostrar um festival de faltas: falta de jogo de cintura; falta de espírito esportivo; falta de educação... Tensa, sugere ao cara (que parecia relax) relaxar. Ao fim, chama o cara de "gordinho". E o fecho com chave de ouro:
"Cê não tem o que fazer, né? Pelo menos trata do corpo..."